A diferença entre ser negra no verão e ser negra a vida toda.

 por  Marina Benini de Araujo | Diario do Centro do Mundo

Negra, com cabelo alisado por pressão social e passando por transição capilar, eu vejo um movimento de brancas se apropriando da cultura negra

Aparentemente se tornou “legal” ser negra neste verão, sem precisar ser negra o resto do ano.

A nova tendência é fazer blackfishing, termo americano para definir situações em pessoas não-negras utilizam itens da cultura afro para se autopromover nas redes sociais, ou até mesmo se mostrar miscigenados.

A começar pela blogueira Bianca Andrade, que utilizou tranças no estilo braid box. Se quiser ver o post dela, aqui.

Tranças essas que são utilizadas pelas mulheres africanas para representar estado civil e região de origem. E hoje se tornaram uma forma de representatividade da mulher negra em geral.

Avisada pelos internautas de que ela estava se apropriando da cultura negra, ela ainda postou uma foto com cabelo crespo após retirar as tranças e colocou a legenda: “a liberdade de ser mil Biancas numa só”

Engraçado: nós não temos a liberdade de ser várias pessoas. Bianca fazer trança é bonito, mas a mulher negra perde o emprego ao aparecer com essas tranças.

Diante da polêmica, a jornalista Ana Carolina Pinheiro, da Capricho, explicou:

“O feminismo nos ensina sobre ter empatia e criar relações não violentas ou competitivas, porém, neste caso, não podemos esquecer que quem não se colocou no lugar das mulheres com vivências raciais diferentes foi a própria youtuber.”

Bianca claramente não tem a  mesma vivência de uma pessoa negra.

O tuíte de Jake, mulher negra, mostra a diferença entre tendência e realidade.

“Bianca Andrade branca com cabelo crespo recebe elogios. Taís Araújo negra de cabelo crespo recebe comentários racistas. Hipocrisia, a gente ver por aqui”, escreveu ela no Twitter, com a imagem dos posts de Bianca e de Taís com cabelos crespos.

Bianca foi chamada de “linda”. Já Taís Araújo recebeu comentários como “Já voltou para a senzala?”.

Obviamente, tendência que é tendência não passa apenas por uma pessoa.

A Ex-BBB Munik Nunes postou no Instagram foto com pinturas no rosto e a legenda “bem africaninha”. Teve seguidor que não gostou da ideia. “Bem otarinha”, disse uma.

Ex-BBB Munik Nunes

Outra blogueira aderiu à moda.

Maju Trindade exibiu na rede social as suas pernas à beira da piscina e comentou “negritude”

As blogueiras trouxeram a legitimidade de ser negro no verão, sem ser uma pessoa negra.

Mas por que é ofensivo?

As blogueiras posando com o bronzeado, de tranças, com pinturas na pele, não torna o negro mais aceito na sociedade. Elas não vão deixar de ser privilegiadas, não vão sofrer racismo ou preconceito no dia a dia.

Uma influenciadora tem a responsabilidade de publicar aquilo que não ofenda ninguém.

A blogueira é bonita, enquanto a negra é ofendida.

Este depoimento é de uma pessoa que demorou a aceitar sua cor e seu cabelo, porque não queria ser diferente da sociedade.

Diariamente oprimida pelos meus cachos armados, alisei o cabelo, e hoje sofro para voltar a ser quem sou verdadeiramente.

O medo do racismo sofrido nunca vai embora.

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Marina Benini é estagiária de jornalismo. Filha de mãe italiana e pai negro, demorou para assumir sua identidade racial. Hoje, não abre mão de suas raízes africanas.

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