Alguém dê um dicionário para nosso novo chanceler

Por Rafael Baliardo, no Justificando

Consultando A pré-história da mente, obra de referência no campo da arqueologia cognitiva (que estuda a evolução da cognição humana), vejo que o autor, o arqueólogo inglês Steven Mithen, usa precisamente a expressão “ideologia religiosa” ao especular sobre quando os primeiríssimos humanos modernos se ocuparam de manifestações rituais e artísticas. Nesses tempos de sobredose de informação e ruído e com a palavra “ideologia” tomada por palavrão, seria de questionar se é certo o autor usar o termo no contexto da mentalidade primitiva de nossos ancestrais, que engatinhavam na direção do simbolismo religioso. Afinal, tendo por certo o que se ouve por aí, o repertório da religião não se submete de jeito algum ao domínio ideológico.

Dicionários são considerados amansa-burros não só por nos permitir saber o significado mais preciso das palavras, mas também por nos ensinar sobre a evolução histórica do uso das mesmas. Ao consultá-los, aprendemos como são utilizadas as palavras quando ganham vida e que por distorções chegaram até o sentido atual. A etimologia é assim uma arqueologia do pensamento, com sua lição sobre como abusamos dos vocábulos.

Já foi pensado, dito e escrito que a única coisa que escapa à ideologia é o mito, porque ninguém o inventa, ele ocorre à humanidade como um todo sob muitas variações. Mito é a religião sem a parafernália dogmática e, portanto, sem suas vestes institucionais. Sem comentários sobre o uso tosco dessa palavra, no Brasil, no contexto recente. Nos melhores dicionários, antes de associarem o termo ao jargão marxista, ideologia aparece como sistema de ideias, crenças e tradições. Na boca do nosso recém-empossado ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, o que define a ideologia é sua condição de se opor às ideias que são auto evidentes como o capitalismo e a fé cristã. De acordo com essa formulação, a ideologia viceja quando as ideias são, no exercício do poder político, alienadas da realidade. Afora cursos de filosofia pela internet com gurus de pijama, é difícil situar as referências teóricas que amparem a tese de ideologia ser, em essência, a própria corrupção das ideias.

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Aluno de um curso de comunicação social no final dos anos 1990, lembro de um lançamento das Edições Loyola, a publicação da tese de doutorado junto à Universidade de Paris da pesquisadora brasileira Linda Bulik, As doutrinas da informação no mundo de hoje. Trata-se de um estudo sobre a regulação, pelos Estados democráticos e totalitários, dos sistemas de comunicação de massa. Em sua introdução, a obra compila justamente o uso histórico do termo ideologia desde a origem, na França, entre os iluministas como Destutt de Tracy, que cunhou o termo no século 19, quando se ensaiou fundar uma teoria da gênese das ideias. É um tanto didático, comparando com hoje, ver que a “ideologia” surgiu assim mais como um “tratado das sensações”, sendo este o título da obra do epistemólogo francês Étienne Bonnot de Condillac, que precedeu Destutt de Tracy em teorias de natureza semelhante.

Linda Bulik, claro, contabiliza também o uso malcriado do vocábulo, assinalando que “ideologia seria a maneira de pensar daqueles com quem não se está de acordo”. Logo, provoca a autora, os ideólogos são sempre os outros. Quando Marx e Engels retomam o termo em 1846, no manuscrito de A ideologia alemã, o conceito ganha o sentido de sistema de representações próprias de um grupo social. Surpreendente para alguns pode ser a constatação de que, contra esses primeiros ideólogos, Marx definia ideologia como “nada além de puro sonho”, convencido de que “as formas de consciência” não tinham uma história própria e se abstendo assim de formular qualquer teoria da ideologia. Marx, claro, pinça o termo “sonho” antes de Freud redefinir as propriedades simbólicas deste, como registra Linda Bulik, referindo com precisão o apontamento de Althusser, francês de origem argelina renomado por formular uma teoria sobre os aparelhos ideológicos de Estado.

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Displicência no uso das palavras nos conduz a ironias como a contradição de que o titular do Ministério das Relações Exteriores quer que o Brasil, enquanto Estado nacional, priorize a relação consigo mesmo e não com o resto do mundo. Em oposição a esse primor de lógica, cabe um exemplo de uso esmerado das palavras no próprio campo das relações internacionais. O professor norte-americano Joseph Tulchin, que conhece como poucos a história do mal-estar entre os EUA e a América Latina desde as origens, ainda no século 19, dos ressentimentos entre o norte anglo-saxão e o sul hispânico e português, importou criteriosamente da psicologia o termo agency (protagonismo) para descrever o fenômeno do exercício consciente de autonomia por um país no campo da política externa.

Diferença fundamental entre os EUA e os países latino-americanos, ilustra Tulchin, o exercício consciente do protagonismo, distinto da “hegemonia” pura e simples, é nada mais nada menos do que uma atitude franca, pragmática e agressiva em relação à política externa tomada desde a hora zero pelas colônias da América do Norte unificadas em uma federação. Prevaleceu entre os fundadores dos Estados Unidos a convicção indestrutível de que o equilíbrio interno depende do sucesso das relações exteriores. E esse princípio os norte-americanos exercem sem constrangimentos, com poucas travas morais e em prejuízo de nações que creem na fantasia de existir economias e sociedades exuberantes abrigadas em Estados miúdos e apertados. Ora, antes dos norte-americanos, os ingleses já haviam descoberto o óbvio quando o sol não se punha mais sobre seus domínios.

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Pouca clareza com conceitos resulta também em patriotas que batem continência para a bandeira dos outros e outsiders da política que são parlamentares de carreira. Muito repetido, o fundamento confucianista zhengming, de que a harmonia do mundo depende da retificação dos nomes, é algo diferente de simplesmente “dar nome aos bois”. Mas dar nome aos bois já é, em si, árduo o suficiente se você precisar substituir por algo mais tangível o medo paranoico do fantasma gramsciano de as pessoas, sem que percebam, serem zumbificadas em socialistas.

Por exemplo, seria mais “auto evidente” questionar sobre se há paralelo atual entre as chamadas democracias ocidentais de um governo civil ocupado por tantos militares em postos-chave. Ao dar nome aos bois, percebemos que, no Brasil, a direita política pode não ter sido excomungada como a esquerda, mas foi substituída, sob o empenho do capital financeiro, por uma preocupante (eufemismo) coligação de policiais, militares, juízes e procuradores que avançam sob o campo político com a desculpa perfeita de lhe extirpar as impurezas. Sorte nossa que eles não têm ideologia.

Rafael Baliardo é jornalista.

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