Ancestralidade e gênero: fonte de conhecimento e construção de identidade | Parte 1

Nossa história está baseada na ótica e ponto de vista dos nossos ancestrais ou daqueles que os submeteram aos processos de escravidão, colonização e colonialismo?


Texto / Luanda Ribeiro do Nascimento
Foto / Reprodução

Em uma série especial, o Alma Preta traz três textos da cientista social e pesquisadora Luanda Ribeiro do Nascimento que discutem sobre as questões da ancestralidade e gênero. Neste primeiro texto, a autora explica como a teoria da mudança social da Afrocentricidade pode lançar luzes para explicar como a nossa localização psicológica é centrada na nossa experiência histórico-cultural. Confira!

Repertório e ascendência cultural

Referências sociais, políticas e filosóficas definem a forma como pensamos, nossos discursos e, por fim, nossas ações (filosofia de Maat – deusa Antigo Egípcia associada à justiça, ordem, equilíbrio e verdade). Logo, elas estão baseadas na nossa história ou na história de outros povos? E nossa história está baseada na ótica e ponto de vista dos nossos ancestrais ou daqueles que os submeteram aos processos de escravidão, colonização e colonialismo?

Em outras palavras é a nossa localização psicológica quem define nossa agência ou des-agência. Desta forma uma pergunta de suma importância se apresenta: nossa localização psicológica é centrada na nossa experiência histórico-cultural ancestral?

A teoria da mudança social da Afrocentricidade nos anuncia o seguinte para lançarmos luzes ao processo de resposta a estes questionamentos :

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“Como uma configuração cultural, a idéia Afrocêntrica foi distinguida por cinco características: (1) um intenso interesse em localização psicológica como determinada por símbolos, motivos, rituais e sinais; (2) um compromisso de encontrar a subjetividade-local dos Africanos em qualquer fenômeno social, político, econômico, religioso ou com implicações para questões de sexo, gênero e classe; (3) uma defesa dos elementos culturais africanos como historicamente válidos no contexto da arte, da música e da literatura; (4) uma celebração da “centralidade” e da agência e um compromisso de refinamento lexical que elimina pejorativos sobre os Africanos ou de outras pessoas; e (5) um imperativo poderoso de fontes históricas para revisar o texto coletivo do Povo Africano. “ (ASANTE, Molefi. Afrocentricidade, raça e razão : 2)

Teoria dos dois berços da Civilização – Unidade Cultural da África Negra de Cheikh Anta Diop: Evolucionismo x Berços Civilizacionais

A Humanidade não seria dividida por estágios universais de desenvolvimento civilizacional como propõem os autores europeus e eurodescendentes como Lewis Henry Morgan, Friedrich Engels e Johan Jakob Bachofen, mas por diferenças de matrizes culturais fundacionais a saber: setentrional (norte/ocidental) x meridional (sul/africana). Esta é a ousada proposta de um dos maiores pensadores africanos do século XX, Cheikh Anta Diop em Unidade Cultural da África Negra: as esferas do patriarcado e do matriarcado na Antiguidade Clássica, que apresento no presente artigo como referência para nutrir os apontamentos da seção anterior sobre localização psicológica desde uma visão pré-afrocêntrica, mas que certamente a influenciou, já que Molefi Kete Asante intelectual criador da Afrocentricidade aponta o pensador citado como uma das bases de sua teoria.

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Traços gerais do berço civilizacional meridional seriam: matrilinearidade (linhagem de descendência definida pela família materna) / matriarcalismo (centralidade da mulher na tomada de decisão cultural-comunitária), compartilhamento comunitário da terra e seus recursos naturais, índole coletiva não guerreira , culto à ancestralidade, xenofilia (abertura ao estrangeiro), unidade moral – à exemplo da já anteriormente citada deusa Antigo egípcia Maat que orientava uma ética coletiva de equilíbrio, temperança, virtude e bem comum. E aqui poderíamos pensar em vários outros traços culturais unitários/sintéticos negro-africanos que conseguimos inclusive identificar até hoje em territórios e símbolos históricos de populações diaspóricas africanas como quilombos, favelas, antigas irmandades de alforria, terreiros dentre outros, no caso brasileiro.

Kemet, nome original do Antigo Egito, aparece assim; ao lado de Kush, nome original da Antiga Núbia ou Etiópia; como legado clássico para os africanos assim como Grécia e Roma o são para o Ocidente, a partir da proposição diopiana. O autor reclama estes elos perdidos pelas falsificações e deslocamentos do seu berço civilizacional original, o setentrional, pela Egiptologia, como um plano colonialista de consagrar a ideia hegeliana de que o continente africano não tinha História.

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Ao resgatar a Antiguidade clássica africana do limbo e reivindicá-la a partir de Kemet (Antigo Egito) Cheikh Anta Diop estabelece uma linha lógica desde a Antiguidade até os reinos africanos de Gana e Mali já na presente era como uma unidade analítica de consistência genealógica , para além de cronológica, de traços culturais distintivos da cultura africana em contraposição à cultura ocidental e seu estratagema assimilacionista cultural da história única. A esta estratégia mais tarde Diop irá chamar de renascimento Africano.

Por fim, segundo o autor e seus sucessores, o renascimento Africano deveria centrar-se na criação de um corpo de ciências africanas focado nesta importante reivindicação histórica genealógica da origem clássica africana, continental e diaspórica, que unifica suas manifestações culturais contemporâneas e as diferencia e dá autonomia frente às narrativas pseudo-universalistas ocidentais que submetem e embotam a agência africana e seu papel na História mundial.

Luanda Ribeiro do Nascimento é cientista social formada pela PUC-Rio e pesquisadora independente de Estudos Africana.

Alma Preta

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