AS MULHERES NEGRAS E A CIÊNCIA NO BRASIL: “E EU, NÃO SOU UMA CIENTISTA?”

Por Bárbara Carine Soares Pinheiro |  Comciencia.br

Apenas 10,4% das mulheres negras com idade entre 25 a 44 anos concluem o ensino superior. O percentual de mulheres pretas e pardas doutoras professoras de programa de pós graduação é inferior a 3%. Só 7% das bolsas de produtividade são destinadas a mulheres negras.

Otítulo deste texto é uma adaptação do emblemático discurso da militante negra ex-excravizada Sojouner Truth em 1851, numa conferência feminista em Ohio, Estados Unidos. Neste antológico discurso, Sojouner problematizava a opressão das mulheres negras nos Estados Unidos, buscando explicitar os graus de desumanização dessas mulheres a ponto de não lhes serem conferidas as características socialmente construídas do gênero feminino.

Mas o que que um discurso do século XIX de uma feminista negra ex-escravizada estadunidense tem a ver com o histórico das cientistas negras brasileiras? Acontece que cientistas negras são mulheres que estão imersas nos segregadores processos de subjugação racial que o racismo estrutural nos impõe em qualquer lugar do mundo. Mulheres negras, assim como todas as pessoas oriundas do processo diaspórico de escravização brasileira, só tiveram a sua liberdade legal a partir de 1888, quando a pressão exercida secularmente pelo movimento quilombola articulada à necessidade de expansão mercantil do capitalismo inglês intensificaram o movimento abolicionista no Brasil, o último país da América Latina a abolir a escravatura.

Nesse sentido, cabe refletirmos: tendo o Brasil abolido a escravidão no final do século XIX, é plausível imaginarmos que pessoas negras brasileiras tiveram um processo tardio de acesso a direitos sociais tais como educação, saúde e moradia, dentre outros. Assim sendo, a universidade brasileira, que teve a sua fundação com a Escola Baiana de Medicina em 1808, foi por muito tempo uma instituição branca, criada no contexto da escravização para suprir as necessidades de uma elite intelectual branca colonizadora e imperialista.

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Pouquíssimas pessoas negras tiveram acesso a escolarização básica, quem dirá àquela de nível superior. No contexto da primeira metade do século XX, enquanto mulheres brancas lutavam pelos direitos sufragistas e de trabalharem fora de casa, mulheres negras trabalhavam nas casas destas tomando conta dos seus filhos e filhas, lavando roupa, sendo empregadas domésticas; sustentavam famílias vendendo quitutes nos tabuleiros… em um presente bem distante de um futuro emancipado academicamente. Nesses termos, mesmo sabendo dos processos de alterização negativa que mulheres em geral sofrem na sociedade, há um descompasso histórico entre a ausência de privilégios das mulheres brancas comparadas às mulheres negras que se perpetuam até os dias de hoje mesmo com todos os direitos alcançados nos últimos anos como a PEC das domésticas, como as cotas raciais, como os programas de combate a miséria no Brasil.

Recentemente, estava dando uma palestra sobre didatização das relações étnico-raciais e apresentava algumas cientistas negras pioneiras no cenário nacional. Foi quando apresentei uma foto da Sônia Guimarães, primeira mulher negra a ter um doutorado em física no Brasil. Neste mesmo momento fui indagada por uma pessoa da plateia que manifestou espanto com a informação e questionou: “Ela é a primeira mulher negra doutora em física no Brasil? Mas ela é muito jovem!”

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Mas é exatamente isso! Essa é a nossa vergonha nacional: saber que a primeira doutora em física do Brasil obteve o título de doutorado em 1989.

Sônia Guimarães, doutora em física pela University of Manchester Institute of Science and Technology (Reino Unido) e professora há 24 anos do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA).

Infelizmente, essa é uma realidade que persiste aos dias atuais, mesmo com os avanços dos últimos anos. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2018, apenas 10,4% das mulheres negras com idade entre 25 a 44 anos concluem o ensino superior. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o percentual de mulheres negras (pretas e pardas) doutoras professoras de programa de pós graduação é inferior a 3%. Segundo uma pesquisa realizada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em 2015 apenas 7% das bolsas de produtividade são destinadas a mulheres negras.

A marginalidade supracitada no ambiente científico não versa sobre a baixa capacidade intelectual de mulheres negras, nem tampouco sobre uma ausência de propensão genética de mulheres negras à produção epistêmica, mas sim sobre um brutal processo social de produção e reprodução de padrões de subalternidade cognitivamente e materialmente a nós impostos.

Nos contaram acerca de uma história de inferioridade programada da população negra no mundo nos últimos quatro séculos e “esqueceram” de nos contar sobre os milênios de pioneirismo intelectual desses nossos e nossas ancestrais nas ciências, na matemática, na filosofia, no desenvolvimento da escrita, na arquitetura, na medicina etc. Nos ensinaram uma história negra que ontologicamente remonta à escravidão, entretanto “deixaram passar” informações relevantes, como o fato de a humanidade ter nascido em África – o verdadeiro velho mundo –; de uma mulher negra africana, Merit Ptah (2700 a.C), ser a primeira médica de que se tem conhecimento; como o fato de não conhecermos grandes impérios africanos como Axum, Meroé, Núbia, Numídia, a Terra de Punt, o Império de Kush, o Império Ashanti e o Império de Gana, dentre outros.

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Concluo informando que é preciso revisitarmos os porões da nossa história para darmos vez e voz a narrativas históricas invisibilizadas, que nos propiciarão uma descolonização dos padrões do que vem a ser ciência e do que vem a ser cientista. É preciso uma olhar atento para a história para compreendermos os passos que nos conduziram até aqui e para termos sensibilidade e empatia com essas existências negadas e inferiorizadas.

Bárbara Carine Soares Pinheiro é doutora em Ensino, Filosofia e História das Ciências pela Universidade Federal da Bahia / Universidade Estadual de Feira de Santana e professora adjunta do Instituto de Química da UFBA. Coordena o Grupo de Pesquisa em Diversidade e Criticidade nas Ciências Naturais (DICCINA), desenvolvendo pesquisas sobre formação de professores e professoras na perspectiva crítico-dialética e diversidade no ensino de ciências.

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