Cabane-se: o chão, Abraão, é mais embaixo. Por José Ribamar Bessa Freire

Deus pôs Abraão à prova, dizendo-lhe: “Tome seu único filho, Isaque, a quem você ama, e vá para a região de Moriá. Sacrifique-o ali como holocausto num dos montes que lhe indicarei”. (Gênesis, 22)

No Taqui Pra Ti

Alter do Chão, distrito de Santarém (PA) à margem direita do rio Tapajós, foi um dos últimos bastiões da Cabanagem (1835-1840) – conflito armado de índios, negros e mestiços contra o colonizador português. Por isso, recebeu de um líder cabano o título de “terra das últimas esperanças de salvação”. É nessa terra que residem hoje os estudantes indígenas Vandria Borari e Gilson Corrêa de Melo. Mas o general português Soares de Andrea, barão de Caçapava, que reprimiu os cabanos, disse que aquele chão era “o lugar para onde todos os demônios iam”. Foi para lá que se dirigiu Abraão Weintraub, ministro da Educação. Lá encontrou os estudantes.

O encontro na segunda (22) levou o ministro a sacrificar seus próprios filhos, o que nos lembra o episódio bíblico de Moriá em Jerusalém, a cidade sagrada da Judeia. Foi ali que Abraão, o patriarca, para provar que era temente a Deus, teria matado o filho Isaque, caso um Anjo do Senhor não tivesse lhe retirado a faca da mão. Se no séc. XVIII a.C. as redes sociais já existissem, quais os comentários de seus usuários sobre o gesto do velho patriarca? Não sabemos, mas em relação a Abraão Weintraub, foram muitas as críticas, uns condenando e outros defendendo a manifestação estudantil.

O resumo da ópera: Weintraub, ministro há menos de quatro meses, já em férias – merecidas? – jantava placidamente com mulher e filhos em restaurante numa praça. Embora o menu não tenha sido revelado, é provável que tenha optado por comida italiana, ele não tem o perfil de quem curte a culinária dos Borari, os primeiros habitantes do local. Não saberia apreciar apiracaia – o peixe assado na brasa, nem o bolinho de piracuí feito com farinha de peixe com sabor defumado.

Foi aí que três jovens ativistas doEngajamundo se acercaram à sua mesa, com outro cardápio: cartazes que criticavam a política educacional do governo, os cortes de verba na educação, o desmonte das políticas de cotas, a agressão às universidades como “lugar de balbúrdia”, o projeto Future-se de privatização das universidades públicas.

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Férias malucas

O vídeo que registrou os fatos mostra jovens pacíficos e serenos, sem elevar a voz, sem perturbar sequer a mesa ao lado. Eles anunciaram com refinada ironia que iriam cortar três chocolates da sobremesa do ministro, a quem ofereceram kafta, em menção bem-humorada às suas conhecidas pisadas de bola. Era um “protesto lúdico” – diz a nota oficial da ONG Engajamundo, entidade sem fins lucrativos que reúne jovens de 15 a 29 anos e “não tem rabo preso com nenhum partido, governo ou empresa”. O vídeo mostra que se tratava de uma ponte estendida para iniciar um diálogo, naturalmente tenso, mas não necessariamente explosivo, sobre as medidas educacionais do atual governo.

O ministro, porém, não tem humor. Não dialoga. É truculento. Não sabe conviver civilizadamente com a divergência, não reconhece a legitimidade de seus opositores. Considera “afronta” qualquer crítica a políticas que prejudicam milhões de brasileiros. Recusou o diálogo. Deixou mulher e filhos sozinhos à mesa, foi ao palco, tomou autoritariamente o microfone do músico que cantava e não hesitou em usar suas crianças como escudo, sem que aparecesse um Anjo do Senhor para tapar sua boca. Monopolizou a palavra com discurso delirante, recheado de rancores e ressentimentos:

“Não sou do PT, nunca roubei, estou com minha família de férias. Meus filhos ficaram comigo, não correram, mas estão chorando. Não existe respeito pela família, mulher, crianças. Fascista é quem mata criança como Che Guevara, ele matou um menino de 9 anos que ousou interceder pelo pai. Che era isso, o paradigma do mau caráter” – disse sem fair play o ministro, que já cantou  singing in the rain em público e reforçava a imagem de que comunistas comem criancinhas.

Sua fala destemperada incendiou o ambiente e criou balbúrdia. Os jovens do Engajamundo se retiraram imediatamente do local, porque sacaram que o ministro não queria discutir políticas educacionais sobre as quais não deu uma única palavra. Mas o show continuou. Abraão usou a retórica do insulto do seu mestre Olavo de Carvalho para fugir do debate: xingar o interlocutor visto como inimigo e não como um co-enunciador.  É isso que mostra o ótimo vídeo “As férias malucas do ministro” produzido pela Meteoro Brasil, um canal sobre cultura, ciência e filosofia, que desconstrói o discurso de Weintraub e revela como ele opera.

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Os ovos de Hegel  

A arenga do ministro nos lembra a história dos ovos de Hegel. No texto “Quem pensa abstrato?”, o filósofo alemão se diverte com os “argumentos” de uma velha trapaceira, que vendia ovos estragados na feira de Stuttgart. Uma freguesa reclama e a velha responde, xingando-a de prostituta e de filha de corno com adúltera. Hegel pergunta: afinal, o que a honra da moça tem a ver com os ovos podres? A feirante tinha de provar que os ovos não estavam estragados, da mesma forma que o ministro, em vez de historinhas fake sobre o Che, tinha de demonstrar que sua política atende o interesse público.

Mas os xingamentos incomodaram Vandria Borari e Gilson Tupinambá, estudantes indígenas da UFOPA – Universidade Federal do Oeste do Pará sediada em Santarém, que estavam na praça e nada tinham a ver com a organização do evento. Gilson pediu calma ao ministro:

– “Esta terra é nossa casa. Você está na nossa casa”.

O ministro berrou, confundindo seu ego com a pátria amada:

– “Essa terra é minha”.

Chamou o líder tupinambá de “safado” e se “justificou” posteriormente em outro vídeo:

– “ONGs internacionais que ficam caçando vagabundos, põem cocar na cabeça deles e falam que são índios”.

Vandria Borari, que no dia seguinte colava grau, se sentiu justamente ofendida e ainda tentou dialogar. Inutilmente.

– Sou a primeira mulher indígena a me formar em direito na UFOPA – ela disse.

Abraão foi vaiado por uns – a “gentalha cabana” – e aplaudido por outros – “os homens de bem”, os puxa-sacos do poder: a Prefeitura de Santarém, a Associação Comercial, o Conselho de Desenvolvimento Comunitário de Alter do Chão e até o reitor da UFOPA Hugo Alex Diniz, que devia defender seus alunos. Quase de cócoras, em notas oficiais, pediram desculpas ao ministro pela “hostilidade sofrida” diante de seus filhos.

Se Abraão não queria dialogar, mas brigar, que levasse seus filhos ao hotel e voltasse sozinho. Parece, no entanto, que sua tática teve um êxito relativo, porque até algumas pessoas sensatas, críticas e bem-intencionadas caíram no conto da vitimização e lhe prestaram solidariedade, desconsiderando que o discurso de vítima veio o tempo todo acompanhado de um comportamento ameaçador para intimidar e insultar quem dele divergia. Ali, quem dava as cartas era ele. Se o bate-boca for analisado no contexto dessas relações de poder, outra será a visão.

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Os “falsos índios”

Postagens nas redes sociais repudiaram a manifestação legítima dos estudantes, identificando neles, de forma equivocada, a causa do constrangimento submetido às crianças, mas silenciaram, desacertadamente, sobre as ofensas aos índios classificados de “vagabundos”, “safados” e “falsos” índios. Se não são índios e entraram na universidade através de ações afirmativas, o ministro está implicitamente acusando de fraude a UFOPA, onde estudam 443 indígenas, que lutam para a manutenção da Bolsa Permanência que o ministro ameaça cortar.

Gilson, que estuda gestão pública, é da linhagem daqueles Tupinambá do litoral do nordeste que no séc. XVI fugiram das tropas portuguesas para não serem escravizados. Uma parte subiu o rio Amazonas até Chachapoya, no Peru. A outra se refugiou na missão jesuítica Santo Inácio de Loyola, no rio Tapajós. Seus avós foram entrevistados pelo padre Acuña no sec. XVII.

Vandria, a jovem advogada, é um dos 1.100 Borari que restaram do massacre da Cabanagem e permaneceram muito tempo camuflados para sobreviver. Sua mãe, dona Ramira, tinha uma barraca de comida na praia  de Alter do Chão. Seu trabalho de conclusão de curso – “Terra Indígena Borari no município de Santarém (PA): Identidade e Cidadania” trata da invisibilização dos povos indígenas e das violações a seus direitos, que estimulam os conflitos. Discute a relação com o território, os sítios sagrados e arqueológicos. Seria leitura mais útil ao ministro do que textos de autores como Franz “Kafta”. 

Que Gilson Tupinambá, Vandria Borari e seus colegas possam estudar e viver em paz na “terra das últimas esperanças de salvação”. Que esses descendentes de cabanos usem como arma a palavra e o argumento para ensinar ao ministro que Alter do Chão é mais embaixo.

P.S. Ver As Férias Malucas do Ministro

Foto: Reprodução/Twitter

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