Declarações racistas de participante do BBB 19 geram revolta nas redes sociais

Marcos Barbosa | Brasil de Fato

Como acontece há quase duas décadas, em todo início de ano a Rede Globo traz em seu horário nobre uma nova edição do Big Brother Brasil (BBB), programa do estilo reality show surgido na Holanda em 1999, mas que já foi levado para dezenas de países em todo o mundo. Este ano, na 19ª edição do programa, a mineira Paula von Sperling foi considerada uma das favoritas ao prêmio de R$1,5 milhão, que é dado a quem possuir melhor aceitação entre a audiência. No entanto, as declarações consideradas racistas ditas pela participante na casa têm repercutido bastante nas redes sociais, o que tem feito perder ela grande parte da sua torcida. 

Adjetivos como “favelado” e “cabelo ruim” são comumente utilizados por Paula, que é loira de olhos azuis, jovem e de classe média. Ela também já fez afirmações contra as cotas e o feminismo. Em um dos casos que mais gerou revolta nas redes sociais, Paula, que é formada em direito, compartilhava com os colegas de confinamento uma história sobre uma audiência judicial que acompanhou, em que o julgado era um homem que havia tentado assassinar a namorada. A participante contou que ficou surpresa ao descobrir que o homem não era um morador da favela, mas um rapaz “branquinho” e que já havia morado fora do Brasil.

De acordo com Catarina de Angola, jornalista e feminista negra, a participante Paula tem sido uma das principais pessoas a reproduzir comportamentos racistas dentro da casa do BBB 19. Catarina afirma que, mesmo não acompanhando o programa pela televisão, tomou conhecimento desses e de outros casos relacionados ao programa através das redes sociais. “Sempre percebo pessoas comentando sobre o programa e o que acontece lá dentro. Muitas vezes, esses casos que saem e ganham força nas redes sociais são casos de assédio, machismo, misoginia ou racismo”, afirma. 

Na opinião dela, esses acontecimentos não são realmente uma novidade porque essa é uma característica do programa, que visa gerar o máximo e atritos entre os participantes para conseguir audiência. “As ‘polêmicas’, muitas vezes, não são simplesmente ‘polêmicas’. Não podemos tratar casos de racismo como polêmica, apenas, ou como um ‘deslize’, que é como muitas vezes é dito sobre a participante Paula. Racismo é crime, não são simplesmente polêmicas”, explica.

Na visão de Catarina, a Rede Globo tem responsabilidade sobre isso, porque é a equipe da emissora que seleciona os participantes, passando por um longo processo de entrevistas e testes psicológicos: “Ela (a Rede Globo) sabe bem o perfil dos participantes, porque não é um sorteio, eles que selecionam esses perfis. São muitos casos de violência dentro do programa, ou anteriores, casos que a emissora poderia ter conhecimento”. A jornalista também lembra que, por ser uma emissora de televisão aberta, a Rede Globo é uma concessão pública e, por isso, deveria produzir conteúdo de interesse público.

SAIBA MAIS.:  Diáspora Black: projeto de turismo afro arrecada 600 mil em financiamento coletivo em apenas duas semanas  

 

Militância negra 


Para Catarina, a repercussão negativa das declarações de alguns participantes e a cobrança do público são resultado da ação dos movimentos que há muito tempo lutam contra o racismo na sociedade. Para a jornalista, muita coisa dita hoje pelos participantes não gerariam o mesmo impacto se ditas anos atrás, porque a sociedade tem estado cada vez mais consciente e vigilante sobre esses temas. “Não é o BBB que está trazendo essa questão à tona e nem é a Globo a protagonista que está levantando um debate sobre racismo no Brasil. O movimento negro e as mulheres negras organizadas vêm pautando a necessidade de questionar essas estruturas racistas e mudar isso. É uma militância, uma resistência, de muitos e muitos anos, no Brasil e no mundo inteiro”, enfatiza.

SAIBA MAIS.:  CULTNE NA TV - Programa Renato Piau



Como denunciar?

São vários os episódios de crimes praticados pelos participantes do Big Brother dentro do programa. Já houve casos de participantes que cometeram abuso sexual e violência contra a mulher dentro da casa e que só foram expulsos após ação da justiça, impulsionada pelas denúncias do público, que cobrou postura da emissora. Cada vez mais, os internautas que acompanham o programa reproduzem nas redes sociais vídeos expondo declarações machistas, racistas ou homofóbicas ditas pelos participantes. 

No caso das pessoas que queiram denunciar os crimes de racismo, podem fazê-lo dentro do que está estabelecido pela Lei nº 7.716, que define os crimes resultantes de preconceito de raça e cor. De acordo com a Lei, praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional por intermédio dos meios de comunicação pode acarretar uma pena de dois a cinco anos de reclusão, acrescida de multa. 

De acordo com a advogada Clarissa Nunes, qualquer pessoa que tenha se sentido ofendida pelo que foi transmitido pode procurar a delegacia para prestar boletim de ocorrência, porque nesse caso o sujeito passivo que se sentiu ofendido foi a sociedade. “Qualquer pessoa que viu o crime acontecendo pode procurar a delegacia e prestar queixa”, explica a advogada. Após a investigação, a queixa pode ser levada ao Ministério Público e posteriormente à justiça.

SAIBA MAIS.:  “Dona Ivone Lara”, escrita e dirigida por Elísio Lopes Jr., estreia dia 29 no Teatro Sérgio Cardoso

Edição: Monyse Ravena

Deixe uma resposta