Dez anos sem Oliveira Silveira, o poeta da Consciência Negra

por BRUNO TEIXEIRA | Gauchazh

— Por que 13 de maio, quem assinou e em qual circunstância assinou essa lei, o que aconteceu com os negros que foram libertados?

A pergunta que hoje ecoa pela voz da professora Naiara Rodrigues Silveira Lacerda, 50, foi o combustível para que o seu pai, o poeta Oliveira Silveira, idealizasse, em 1971, a campanha que transformaria o dia 20 de novembro no Dia da Consciência Negra.

Poeta, professor e ativista do Movimento NegroOliveira Silveira é responsável por obras literárias que ainda inspiram eventos culturais, escritores, jovens e adultos dez anos após sua morte, completada em 1º de janeiro.

Em 1971, a esquina entre a rua dos Andradas e a Avenida Borges de Medeiros ainda não se chamava Democrática, mas já era o ponto de encontro de quatro jovens universitários que discutiam pautas relativas ao negro no Brasil. Em uma dessas conversas, Oliveira Silveira, Vilmar Nunes, Ilmo da Silva e Antônio Carlos Côrtes passaram a questionar a legitimidade do 13 de maio (dia da abolição da escravatura) para o povo negro.

Côrtes, que havia descoberto a figura de Zumbi dos Palmares por meio de pesquisas, apresentou a história do Quilombo dos Palmares aos amigos, o que levou os jovens ao 20 de novembro, dia da morte de Zumbi, em 1695. Nasceu assim o Grupo Palmares, uma entidade cultural para promover estudos de história sobre a contribuição do povo negro para o Brasil.

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— Depois dessas duas reuniões, na casa do Oliveira, e depois na casa dos meus pais na rua dos Andradas, o ato mais aberto foi no clube náutico Marcílio Dias, onde fizemos um breve excurso histórico de tudo aquilo, onde participaram cerca de 20 pessoas. Ali houve a materialização do Grupo Palmares — conta Cortês.

Em pleno período do AI-5, a organização do Grupo Palmares chamou atenção do regime militar. Primeiro pelo nome, que lembrava o grupo VAR Palmares; segundo, conforme Cortês, pelo medo do surgimento de uma organização semelhante ao Partido dos Panteras Negras. Assim, Cortês e Oliveira Silveira acabaram por ser convocados para dar explicações à censura.

— Nós tivemos que fazer um roteiro daquilo que íamos apresentar no Marcílio Dias para ter o carimbo de liberado. Nós não sabíamos se no dia (da reunião) tinha alguém infiltrado — lembra Cortês.

Apesar de a campanha do grupo Palmares propor a reflexão sobre o papel do negro no Brasil, a poesia de Oliveira Silveira também carregava outro tipo de reflexão: o negro no Rio Grande do Sul. Nascido no distrito de Touro do Passo, em Rosário do Sul, o poeta contou em vários versos a vida do negro gaúcho, especialmente a do interior do Estado. Para Ronald Augusto, 57, poeta, amigo e organizador da antologia da obra de Oliveira Silveira, mesmo apresentando um cenário com elementos locais em sua literatura, o artista e ativista se relaciona com a cultura gaúcha de modo crítico.

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— Isso é notório na poesia dele. Esse traço gaudério na poesia dele, no aspecto positivo. Quem fala isso é o Oswaldo de Camargo na introdução do penúltimo livro do Oliveira Silveira. Ele fala na poesia afrogaúcha do Oliveira Silveira. Acho que isso é inegável, mas acho que o regionalismo na poesia dele é análogo ao regionalismo nordestino na poesia do João Cabral de Melo Neto. Em ambos os poetas, esses traços aparecem, mas não a ponto de ser um regionalismo fechado — explica.

— Oliveira é um poeta, como diz Osvaldo de Camargo, que inaugura uma vertente afrogaúcha, mas ele não se relaciona com ela de modo pacífico. Ele é crítico, não embarca no “sirvam nossas façanhas de modelo a toda a terra”. Claro, ele é crítico em relação à história do Rio Grande do Sul com a população negra — analisa.

A mesma Esquina Democrática que foi local dos primeiros encontros do Grupo Palmares, também era o local onde Oliveira batia ponto para divulgar os seus saraus de poesia.

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— Lembro do meu pai panfletando o convite na Esquina Democrática, convidando as pessoas para ir no sarau no mercado. Mesmo com poucas pessoas no início, iam cinco, seis, ele nunca desistiu de fazer – recorda Naiara.

O evento Roda de Poesia serviu como uma das inspirações para um sarau em homenagem ao próprio Oliveira Silveira. Em 2009, meses após a morte do poeta, nasceu na Capital o Sarau Sopapo Poético, realizado desde então sempre na última terça-feira do mês.

— Foi muito natural a ideia de homenagear o Oliveira Silveira e de dar ênfase à poesia nesse projeto do sopapo com protagonismo negro. Nós não temos espaços importantes para colocar a poesia, a literatura, então surgiram muitos poetas e poetisas dentro do Sopapo. A intenção era criar publico para a poesia e apresentar novos autores negros – afirma Maria Cristina Santos, coordenadora do Sarau Sopapo Poético e membro da Associação Negra de Cultura de Porto Alegre.

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