Djamila Ribeiro reflete sobre o desafio de lidar com a extrema-direita

Por Djamila Ribeiro Do Maria Claire

Em 2019 começa o governo de um homem que mede quilombolas por arrobas; que disse a uma mulher que não a estupraria porque ela não merecia; que afirmou que pessoas são gays por falta de porrada; que proclamou que irá acabar com “todos os ativismos do Brasil”, entre outras declarações que o tornaram o surreal candidato vencedor numa eleição presidencial marcada por denúncias de caixa dois, “fake news” e por aí vai. Um governo cujo líder bate continência até para o assessor do presidente norte-americano; que afirma ser contra a corrupção, mas compõe seu gabinete com pessoas comprovadamente envolvidas em prevaricação; e promove como ministro aquele que foi responsável pela perseguição jurídica do único que, pelas pesquisas, seria capaz de se contrapor ao discurso de ódio que o motiva.

Convenhamos, trata-se de um ano desafiador para aquelas e aqueles que pertencem aos grupos minorizados, como os que buscam em seus locais de trabalho, em seus bairros, algumas brechas para propor um mundo mais humanizado; que lutam por outros marcos civilizatórios no país de tradição secular colonial. Entretanto, o fenômeno de ascensão de governos como o que (re)começa em Brasília possui contornos globais. Na Europa, a chegada ao poder de partidos de extrema-direita, apoiados em discursos de ódio, é uma realidade em países como Itália e Espanha. Nos Estados Unidos, Donald Trump foi eleito com uma narrativa abertamente de raiva aos imigrantes e de aproximação aos supremacistas brancos. Na Ásia, as Filipinas é exemplo de governo com falas próximas às de Bolsonaro, assim como em países do Oriente Médio, entre eles Arábia Saudita e Israel.

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O fenômeno global de governos que perseguem minorias e se assentam sobre essa fala foi tema, inclusive, de um seminário no qual estive em Barcelona em meados de dezembro. A convite da prefeita da cidade, Ada Colau, me reuni com secretários de municípios de todo o mundo e filósofas para pensar caminhos de solidariedade global frente aos tempos que virão. Foi um excelente encontro para dimensionar os desafios do ano que entra e pensar estratégias de resistências e reexistências.

Coluna Djamila (Foto: Ilustração Nina Vieira)

De minha parte, penso que será fundamental olhar mais para o outro. Um ano de solidariedade e acolhimento dos que serão mais atingidos pela política pública antissocial e anti-intelectual. Há desafios inegáveis à frente, mas também há muita esperança. Encontro multidões por onde passo, compostas por pessoas das mais variadas origens, mas, sobretudo, uma juventude engajada em debates e que não aceitará gentilmente a perda de seus futuros. Debates descoloniais, como o feminismo negro, ampliaram suas fronteiras e hoje são realidade em faculdades, livrarias e empresas. Está na casa das pessoas entendimentos sobre novos marcos civilizatórios e de humanidades, propostas que visam à descolonização de mentes e práticas com vistas a um outro mundo que, sim, é possível.

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Será um ano em que teremos de lidar com notícias difíceis e tristes, com a confusão do próprio grupo que está no governo, não nego. Contudo, sendo feminista negra, retomo Lélia Gonzalez quando ela diz que não compartilhamos apenas legados de dor, mas também de luta. Cada qual em seu espaço, promovendo medidas para acolher e resistir, em redes de apoio, solidariedade e disputa com o que se quer naturalizar, mas que não passa do mais antiquado reacionarismo que privilegia os grupos que buscam se perpetuar no poder desde as colônias. O que não esperam, por certo, é a potência que a solidariedade tem para oferecer. É com esses votos e com esse sentimento que desejo a todas e todos muita luz e um ótimo começo de ano.

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Djamila Ribeiro é mestre em filosofia política e feminista, autora dos livros o que é lugar de fala e quem tem medo do feminismo negro? (@djamilaribeiro1)

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