Doença de Chagas: Brasil tem mais de 1 milhão de infectados; 86% dos pacientes são negros

 


Mulheres, negras e da periferia das cidades. A doença de Chagas segue fazendo novas vítimas no Brasil. São 110 anos do primeiro diagnóstico, feito pelo médico Carlos Chagas.

A primeira paciente tinha apenas dois anos de idade, chamava Berenice e morava em uma fazenda no norte de Minas Gerais.

Foi contaminada após ser picada por um inseto conhecido como “barbeiro”, transmissor do protozoário Trypanossoma cruzi, que tinha como hospedeiro o gato da família.

A costureira Suzana Lopes Castor, de 41 anos, de Melgaço, no Pará, não conhecia a história de Berenice até novembro do ano passado, quando começou a ter febre alta e fortes dores no corpo. Foram duas semanas de internação e tratamento à base de buscopan e dipirona.

“Eu comecei a piorar cada vez mais, sentindo muita dor, e daí fui para Belém. Minha irmã me mandou ir para Belém e eu fui. Cheguei em Belém e ainda passei dois dias no pronto-socorro da 14. E lá, no pronto-socorro da 14, que eles bateram o raio-X e o médico falou que eu estava com o coração muito grande. E aí que eles viram que eu estava com a doença de Chagas.”

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Suzana está entre os 326 casos de doença de Chagas diagnosticados no Pará, em 2018. O estado concentra o maior número de notificações, seguido do Maranhão e Amapá.

O Brasil tem 1 milhão e 100 mil pessoas infectadas. Mas pesquisas do Ministério da Saúde estimam quase 5 milhões de casos, se considerada a subnotificação no passado. Cerca de 86% dos pacientes se autodeclaram negros.

Ana Yecê Pinto é médica infectologista e pesquisadora do Instituto Evandro Chagas. Ela diz que nos últimos 25 anos houve mudança nas principais formas de transmissão da doença de Chagas no Brasil.

As casas de sapê que abrigavam o barbeiro são cada vez menos comuns e a devastação das florestas fez com que o inseto migrasse para áreas urbanas. Hoje, as fezes do barbeiro transmitem o parasita por meio de alimentos contaminados, como o açaí e caldo de cana.

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“O nosso foco é nessas descrições porque ela é considerada uma doença emergente, também é considerada uma doença negligenciada porque ela atinge populações negligenciadas, que não têm acesso ao diagnóstico muitas vezes, não têm acesso ao tratamento. E doença de Chagas aguda tem tratamento e tem cura. Por isso, é muito importante veicular esse tipo de informação.”

A costureira Suzana, de Melgaço, acredita que foi infectada por açaí contaminado. Ela passou por cirurgias no coração e agora toma um coquetel de medicamentos para controlar os efeitos da doença de Chagas no coração, no esôfago, no intestino e no pulmão.

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Um primo já morreu com a doença. Alguns vizinhos também descobriram a contaminação depois que Suzana foi diagnosticada. Mãe de quatro filhos, a costureira agora torce para que a ciência ande mais rápido do que o parasita causador da doença de Chagas.

“Eu costurava, eu fazia cabelo, fazia uma escova. Hoje a minha única renda é o Bolsa Família. Até para vestir uma blusa eu preciso pedir para alguém vestir em mim. Para tirar porque eu não consigo fazer movimento com meus braços. Eu sinto muita dor nos braços e na costa.”

Amanhã, na terceira reportagem da série sobre doença de Chagas no Brasil, você confere o esforço dos cientistas, profissionais de saúde e famílias para garantir a prevenção, o diagnóstico e o tratamento dessa enfermidade, que mata cerca de 12 mil pessoas por ano em todo mundo.

Por Afrobrasileiros

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