Eterna mente artista representa agora em outros planos – Axé Ruth de Souza

No dia 28 de julho, com 98 anos  Ruth de Souza partiu

Aproveitamos para pulicar novamente uma entrevista feita por Milton Nicolau, in memoria, no ano 2000, quando surgiu o Portal Afro, sendo ele um dos seus fundadores.

RUTH DE SOUZA ( por Milton Cesar Nicolau 03/09/2000)

O Teatro Municipal do Rio de Janeiro já foi cenário de diversas histórias e inspiração para tantas outras. A que envolve a carreira da atriz Ruth de Souza pode não ser a mais famosa, mas é, sem dúvida, uma das mais comoventes.

Ruth aos 8 anos de idade

Sua mãe, Alaíde Pinto de Souza, era apaixonada por operetas e sempre levava consigo sua única filha aos espetáculos do municipal.

“Éramos pobres e não sei como minha mãe fazia para conseguir os ingressos. Só me recordo que quando estreava “A Viúva Alegre”, por exemplo, ela ficava entusiasmadíssima, me enfeitava toda e íamos ao municipal”.

Ruth, nos estudios da Vera Cruz

Por obra do destino e portanto sem explicação lógica, em uma dessas vezes a pequena Ruth entrou pela porta dos artistas e assistiu ao espetáculo sentada numa cadeira, ao lado do homem que controlava as cortinas, no palco. A garota ficou fascinada com o vaivém dos artistas e técnicos. O momento mágico aconteceu quando a estrela, numa das saídas para troca de figurino, olhou para ela e carinhosamente acariciou seus cabelos. Mais tarde, Ruth ficou sabendo que aquela, que talvez tenha sido sua “fada madrinha”, era uma diva do canto lírico. Algumas décadas mais tarde, Ruth voltou ao mesmo teatro para receber o prêmio Ministério da Cultura de Artes Cênicas, pelo conjunto de sua obra. Certamente, emocionou-se ao pisar naquele palco, não mais como uma menina encantada por operetas, e sim como uma grande atriz. Talvez tenha procurado, de soslaio, pelos cantos, aquela cadeira, cúmplice e coadjuvante de sua precoce estréia.

Portal – Que recordações você tem de sua infância?

Ruth de Souza – Fui uma criança feliz. Meus pais eram lavradores. Nasci no Rio de Janeiro, mas fui criada numa fazenda em Minas Gerais. Vivíamos com dignidade num ambiente comunitário, onde todos dividiam o pouco que tinham.

Portal – Até quando viveram na fazenda?

Ruth de Souza – Até a morte de meu pai, Sebastião Joaquim Souza. Eu tinha 9 anos e minha mãe resolveu voltar para o Rio.

“Olhai os Llírios do Campo”

De volta à cidade maravilhosa foram morar em Copacabana, onde Dona Alaíde começou a lavar roupas para famílias ricas. Ruth nos conta que a mudança do ambiente rural para o urbano modificou sua vida. “Na fazenda, nunca percebi que “era negra”. Éramos todos pobres e não havia nenhum tipo de separação. Ao chegar na cidade notei diferenças entre as pessoas. Brincava na rua com as meninas ricas da vizinhança, mas quando tinha alguma festinha, a “filha da lavadeira” não era convidada. Também descobri que as outras negras do bairro eram sempre empregadas das famílias brancas…”

Portal – De onde veio seu interesse pelo mundo artístico?

Ruth de Souza – Tinha quase dez anos quando fui ao cinema pela primeira vez. O filme em cartaz era “Tarzã, o Filho da Selva”. Fiquei deslumbrada com tudo aquilo. A tela imensa, as pessoas bem arrumadas e cheirosas na platéia, o som, a luz e tudo o mais. O cinema influenciou muito minha vida e, claro, minha carreira.

Portal – Dona Alaíde gostava de operetas, cinema… Era uma amante das artes?

Ruth de Souza – Ela viveu dos 11 aos 21 anos (quando casou com meu pai) junto de minha avó, na casa dos Galvão. Era uma família muito culta, tocavam piano e frequentavam as óperas. Minha mãe foi influenciada por este ambiente.

Em “Helena”, primeira novela das seis na Globo

Portal – Como começou sua carreira?

Ruth de Souza – Sempre gostei muito de ler, desde pequena. Uma vez, lendo a “Revista Rio”, fiquei impressionada com uma matéria de quatro páginas sobre alguns jovens que, liderados por Abdias do Nascimento, criaram o TEN – Teatro Experimental do Negro. Não tive dúvidas. Fui oferecer meus serviços ao grupo.

Algum tempo depois, Ruth de Souza estreava no Teatro Municipal com “Imperador Jones”, em 8 de maio de 1.945. Desde então, não parou mais de atuar.

Portal – Sua amiga Léa Garcia disse considerar-se uma atriz de teatro. E que seria esta a forma mais sublime de atuar. Você concorda?

Ruth de Souza – Claro. O teatro é o veículo do ator. É nossa universidade, onde aprendemos tudo sobre a arte de representar, onde adquirimos disciplina. Perceba que todos os grandes atores sempre começaram no teatro.

Portal – Porque a presença de negros nos palcos é tão pequena?

Com sua amiga, Inezita Barroso em Ângela.

Ruth de Souza – Infelizmente, não temos negros que escrevam para teatro. Todos os autores são brancos e consequentemente escrevem para brancos. Quero entender isto não como racismo e sim como a atitude natural de pessoas que escrevem sobre seu cotidiano, onde negros não têm participação significativa.

Ruth conta uma história que ilustra perfeitamente esta situação. Quando foi convidada para fazer cinema em São Paulo, na Vera Cruz, pesava cerca de 45 kilos. O diretor (um figurão da alta sociedade) condenou seu porte, alegando que não serviria para o papel por ser muito magra. Ruth, corajosamente retrucou: “O senhor deve estar confundindo as coisas. É impossível que os colonos brasileiros que trabalham tanto e comem pouco sejam gordos. As negras do campo no Brasil não são como aquelas mostradas por hollywood. O Diretor teve que admitir que ela estava certa. Por pertencer a elite não tinha contato com negros. Sua única referência eram as empregadas de sua casa e os estereotipados negros apresentados pelo cinema norte-americano. Ruth, com seu argumento, conseguiu o papel e ganhou vários prêmios. “Entendi que a visão que eles têm do mundo é outra. Não são pessoas que vivem junto ao povão. Não entendem que nós, brasileiros, somos misturados…”

Na produção norte-americana “Wodoo Woman”.

Portal – Qual a saída, então?

Ruth de Souza – Precisamos de autores, negros ou não, que saibam escrever sobre nossas vidas, nossas alegrias, tristezas, problemas…

Nas telas o nome de Ruth de Souza aparece em mais de trinta filmes.E foi através do cinema que viveu um fato desconhecido pela maioria das pessoas e desprezado por aqueles que poderiam propagá-lo. No festival de Cinema de Veneza, em 1.954, Ruth foi indicada para o prêmio de melhor atriz por sua atuação em “Sinhá Moça”. Suas concorrentes eram as estelares Katherine Hepburn, Michele Morgan e Lili Palmer. Por dois votos perdeu para Lili Palmer, ficando à frente das duas outras consagradas atrizes. Naturalmente, após esse honrado segundo lugar, Ruth passou a ostentar o mesmo quilate de suas companheiras. Menos no Brasil.

Portal – Porque a imprensa brasileira não deu o merecido destaque a sua indicação e ao resultado da premiação?

“Terra Violenta”

Ruth de Souza – O que você esperaria da midia na década de 50? Se hoje o negro ainda é deixado de lado, imagine naquela época. Fiquei sabendo de minha indicação e, mais tarde, do resultado, por acaso. Antigamente, os cineastas não participavam e nem inscreviam seus filmes nos festivais internacionais. Naturalmente, nunca iriam fazer uma grande promoção de minha indicação ao prêmio. É bem verdade que ganhei a capa da revista Manchete, por causa do sucesso do filme. Curioso é que as reações foram mais de surpresa por verem uma negra em destaque do que admiração por meu trabalho…

Portal – Você foi a primeira atriz brasileira a brilhar no exterior?

“A Morte comanda o Cangaço.”

Ruth de Souza – Acredito que sim. Não me lembro de outra que tenha passado por isso antes de mim.

Esse prêmio e tantos outros que Ruth de Souza recebeu são, evidentemente, resultado de seu esforço e talento.

Portal – De onde vem sua famosa disciplina?

Em “Corpo a Corpo”, grande sucesso de Gilberto Braga.

Ruth de Souza – Desde pequena sou muito exigente comigo. Na escola, apareceu uma vez um texto que dizia que os negros não tinham inteligência, por possuírem o cérebro atrofiado. Minha primeira reação foi chorar. Depois, passei a usar isto como estímulo. Eu era uma das poucas alunas negras na escola e senti a obrigação de provar que aquilo não era verdade. Comecei a estudar mais que todos. Eu tinha horror em imaginar não ganhar nota máxima nas provas. Mais tarde, incorporei esta exigência à minha carreira. Quando interpreto um personagem dou sempre o melhor de mim.

A excelência da formação profissional e técnica de Ruth de Souza também se deve aos estágios e estudos realizados nos Estados Unidos. Durante um ano, patrocinada por uma bolsa da Fundaçào Rockefeller, pôde frequentar conceituadas escolas dramáticas, como a Harvard University, em Washington e a Academia Nacional do Teatro Americano, em Nova York.

Com Grande Otelo, em “Somos todos Irmãos”

Portal – O que você pensa da admiração que os negros brasileiros têm pelos negros norte-americanos?

Ruth de Souza – A maioria dos norte-americanos, negros ou não, tratam os latinos com muito desdém e pouco caso. Os negros ricos nos Estados Unidos ajudam, mas não se misturam com os pobres. É claro que não vão se preocupar com a situação dos negros brasileiros. Acredito que essa admiração venha da posição social que eles ocupam. Infelizmente, os negros brasileiros copiam apenas o lado fútil deles, como o modo de vestir, e não a forte ideologia e o firme posicionamento político.

Portal – Os negros brasileiros não são tão unidos quanto os americanos? Falta solidariedade?

Gimba

Ruth de Souza – Solidariedade só existe entre os judeus, que se unem para defender seus ideais e sua gente. É muito difícil conseguir juntar meia dúzia de negros para a realização de um objetivo comum. Acho que a necessidade de competição faz de todos um pouco individualistas.

Portal – E os negros que ganham dinheiro no Brasil, como pagodeiros e jogadores de futebol? Porque eles não financiam educação e cultura, como fazem os negros norte-americanos?

Ruth, em “Bicho do Mato”.

Ruth de Souza – Um bom exemplo é o Netinho, do Negritude Jr. Gosto muito do que ele faz pelas crianças. Infelizmente, a maioria fica deslumbrada com tanto sucesso. Nossa infelicidade é que a maioria dos negros que ganha dinheiro no Brasil não teve uma boa formação cultural. Hoje, a maioria das crianças, brancas ou negras, querem ser modelos, pagodeiros ou jogadores de futebol. “Não entendo nada de futebol, mas tenho uma inveja danada do público dos jogos. Imagine se aquele povo todo fosse também ao teatro, seria uma maravilha”

São nesses comentários espirituosos que Ruth de Souza revela um lado díficil de imaginar por quem não teve a oportunidade de conhecê-la ou de compartilhar de sua companhia por algumas horas: o bom humor. Dona de um aguçado e cômico senso crítico, Ruth alia a experiência acumulada por anos de carreira a uma sur- preendente calma ao opinar sobre temas que seriam tratados de forma mais calorosa por pessoas tão capacitadas quanto ela. Ruth tem total consciência do mundo em que vive e das dificuldades que o cercam. Não sofre por isso, nem tampouco conforma-se. Apenas enfrenta os problemas com inteligência e serenidade, típi- cas das mentes iluminadas.

Portal – Quais foram os momentos mais marcantes em sua carreira, até hoje?

Ruth de Souza – No cinema, sem dúvida, foi Sinhá Moça. No teatro, “Réquiem para uma negra” , de William Falkner, foi meu grande momento. Finalmente, na televisão, protagonizei “A Cabana do Pai Tomás” ao lado de Sérgio Cardoso, que foi meu grande amigo e um dos responsáveis por minha entrada na Globo, onde estou até hoje. “Tive a sorte de encontrar gente muito boa durante minha carreira e de conservar grandes amizades.”

O Pagador de Promessas com Milton Gonçalves

Chegamos ao final de nossa entrevista com Ruth de Souza esperando ter revelado a nossos internautas um outro lado dessa grande mulher. Despedimo-nos com a esperança de que as novas gerações, tão íntimas do mundo virtual, possam conhecer e respeitar essas personalidades que tanto fizeram para que hoje vivamos um pouco melhor.

“Ruth de Souza foi a primeira atriz negra a atuar como protagonista na TV Brasileira, em A Cabana do Pai Tomás (1969). Ruth também fez história ao ser a primeira atriz negra a representar no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Foi no dia 8 de maio de 1945, em “O imperador Jones”, de Eugene O’Neil, numa montagem do Teatro Experimental do Negro, grupo fundado por Abdias Nascimento e Agnaldo Camargo.”

SAIBA MAIS.:  Michael B Jordan como Superman?

Fonte: Último Segundo – iG @ https://ultimosegundo.ig.com.br/colunas/afro-igualdade/2017-09-12/ruth-de-souza.html


O post Eterna mente artista representa agora em outros planos – Axé Ruth de Souza apareceu primeiro em Instituto Portal Afro.

Portal Afro

Deixe uma resposta