Google e Facebook: pior do que Crivella?

Um grito que se cala

Fausto Salvadori, editor e repórter da Ponte Jornalismo

O horror volta e meia mostra a sua cara no cotidiano de quem trabalho com temas ligados a direitos humanos no Brasil. Nos dias que correm, costuma aparecer na forma de vídeos amadores, com enquadramento torto e áudio entrecortado, e tanto pode ser flagrado pelos celulares de testemunhas que buscam denunciar o horror como por algozes que fazem questão de filmar e exibir o horror que provocaram.

Muitos vídeos assim circulam entre os repórteres da Ponte, espalhando o horror em meio às nossas reuniões de pauta e grupos de Whatsapp. Boa parte guardamos para nós e tentamos esquecer (sabendo que é impossível), como as imagens de rebeliões em presídios nas quais o horror se mostra na forma de cabeças cortadas e corpos carbonizados, acompanhados dos não menos horríveis gritos de comemoração.

Na semana passada, o horror se mostrou numa cena em que não havia sangue, mas que mesmo assim doía ao assistir. Um menino, nu, encolhido e chorando, mostrava-se fragilizado como uma criança, parecendo ter muito menos do que os seus 17 anos reais, diante de algozes invisíveis que o chicoteavam sem hesitação, mostrando na voz a certeza de quem sabe estar fazendo algo correto — e tanto sabia que filmou e espalhou nas redes.

A filmagem do menino negro chicoteado por dois seguranças a serviço do Supermercado Ricoy deu o que pensar e falar dentro da Ponte — somos um grupo horizontal de jornalistas, sem chefes, então é comum que algumas decisões façam a gente quebrar o pau entre nós até a chegada a um consenso. É claro que publicaríamos uma notícia relatando a tortura contra o jovem, mas será que deveríamos divulgar o vídeo? Se por um lado era uma denúncia, também era o reforço de um estigma: o corpo negro associado a chibatadas, às infindáveis violências que as pessoas de origem africana sofreram desde sua chegada ao continente americano, no século XVI. O quanto uma imagem dessas não é dolorosa demais, capaz de reavivar as piores memórias da violência e do racismo em tantas pessoas?

Argumento vai, argumento vem, venceu a ideia de publicar, sim, o vídeo, já que a denúncia contida naquelas imagens se sobrepunha à questão do (justo) incômodo que elas poderiam causar. Esse incômodo era justamente o que fazia do vídeo algo tão importante, por escancarar a violência racial num país que muita gente até hoje prefere continuar a acreditar que somos um povo sem preconceitos nem divisões, tudo em nome de um “Brasil acima de todos”. Nesse sentido, seria uma imagem equivalente à da jovem Kim Phúc, vítima de um bombardeio no Vietnã, em 1972, que ajudou a mudar os rumos da guerra.

Tivemos certeza de ter tomado a decisão correta quando conversamos com o jovem atacado e seu irmão e nos disseram que apoiavam a divulgação das imagens. Isso é mais comum do que se pensa, e quem cobre crimes e outras violações de direitos costuma se deparar com situações assim. Vítimas e seus familiares podem falar com um despudor surpreendente sobre as violências que sofreram, muitas vezes fazendo questão de contar detalhes e de exibir imagens dos abusos e suas consequências, quando disponíveis. É algo que se explica, imagino, pela dor sem igual provocada pela injustiça. É a vontade de gritar, para o mundo todo ouvir. tudo o que de errado, absurdo e desumano que outros seres humanos fizeram com você, ou com seu irmão. Gritar e gritar até que todos tenham ouvido.

Como jornalistas, gostamos de pensar que nossa missão é ouvir esses gritos e ampliar o seu alcance, para que sejam ouvidos por mais e mais pessoas.

Mas sempre pode acontecer de aparecer alguém para atrapalhar essa missão. Nesta semana, foram o YouTube e o Facebook, que retiraram do ar o vídeo que a Ponte postou denunciando a tortura do jovem — apenas o Twitter manteve a postagem. Não é a primeira vez que isso acontece. O Google, por meio do YouTube, já removeu conteúdo relevante produzido pela Ponte em outras ocasiões, como um vídeo que mostrava um simpatizante do nazismo agredindo um grupo de jovens em São Paulo. E outros. Google e Facebook claramente não sabem distinguir entre apologia e crítica a violações de direitos.

As remoções têm consequências que vão além da indisponibilidade do conteúdo. Já ficamos impossibilitados de fazer postagens no YouTube durante determinado tempo, por exemplo, por conta dessas punições. O pior é que Google e Facebook adotam ações sumárias e nem ao menos disponibilizam seres humanos para lidar com as pessoas que são afetadas por suas práticas. Nesse sentido, a censura das duas empresas consegue ser ainda pior do que a tentativa de censura decretadas pelo prefeito Marcelo Crivella contra um beijo gay num quadrinho da Marvel. Contra a censura de Crivella, pelo menos é possível recorrer a instância superiores. Há freios e contrapesos e um devido processo legal a ser seguido.

Quando Google e Facebook censuram conteúdo, impedindo que o grito contra violações de direitos chegue a mais pessoas, como é possível contestar suas ações? A quem respondem esses novos censores?


Protesto diante de supermercado onde jovem foi torturado, no último Sete de Setembro | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

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