Humorista Jordan Peele ganha milhões fazendo filme de terror com protagonistas negros

Jordan Peele, o responsável por “Nós”, filme de terror que liderou as receitas de bilheteira no fim-de-semana passado nos Estados Unidos

por Leonardo Ralha no Jornal Econômico Pt

Escritor, produtor e diretor Jodan Peele posa no set de “Nós”

Estabelecendo o novo recorde numa estreia desse género cinematográfico, com 70,2 milhões de dólares (62 milhões de euros), escreveu e protagonizou, há apenas quatro anos, “Keanu”, uma comédia de baixo orçamento na qual dois amigos se faziam passar por bandidos para resgatarem o gato de rua que um deles acolhera.

O norte-americano de 40 anos tornou-se o quinto negro nomeado para o Oscar de Melhor Realizador graças a “Corra”, o filme de terror de 2017 que lhe valeu a estatueta dourada na categoria de Argumento Original, mas antes fizera carreira no humor. Autor de textos e membro do elenco do programa televisivo “MadTV”, juntou-se ao amigo Keegan-Michael Key, coprotagonista de “Keanu”, no programa “Key and Peele”, para o canal_Comedy Central.

Talvez por isso não tenham sido muitos aqueles que o levaram a sério ao saberem que estava a realizar o argumento que escrevera sobre a visita de um homem negro à casa dos pais da namorada branca num fim-de-semana alucinante e alucinado. Mas “Corra” obteve quatro nomeações – além do Oscar de Melhor Argumento Original, Peele foi suplantado nas categorias de Melhor Filme e de Melhor Realizador, tal como_o britânico Daniel Kaluuya perdeu a estatueta de Melhor Ator para o compatriota Gary Oldman, o Winston Churchill de “A Hora Mais Negra” – e faturou um total de 255 milhões de dólares (226 milhões de euros) em todo o mundo, mais de dois terços dos quais nos EUA.

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A concentração de receita no mercado interno não foi uma surpresa. Não só por a indústria cinematográfica dar por certo que filmes com protagonistas negros têm escassas hipóteses de serem êxitos globais – crença posta em causa por “Black Panther” – como pelo impacto do movimento “Black Lives Matter” e pelo facto de “Corra” satirizar a forma como alguns brancos, muito liberais e devotos de Barack Obama, podem ser mais perigosos do que os racistas propriamente ditos. Chris, o jovem negro interpretado por David Kaluuya, descobria da pior forma que os pais e os amigos da namorada apreciavam as qualidades dos negros ao ponto de lhes quererem roubar os corpos.

Filho de um negro e de uma branca, tal como o 44.º presidente dos Estados Unidos, Jordan Peele sabe do que fala quando estão em causa questões de identidade e de racismo. Tanto assim que admitiu ter adiado o sonho de ser realizador devido ao tom de pele. “Pensei que seria mais complicado para mim, enquanto pessoa de cor, convencer alguém a utilizar o seu dinheiro para fazer um filme”, admitiu, numa entrevista ao_“Los Angeles Times”, depois do sucesso de “Corra”. Mesmo tendo feito “uma odisseia na representação e na comédia” para retomar o plano inicial, Peele não hesita em apontar o dedo a si próprio por ter “interiorizado o sistema”.

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Apontado para um sucesso sem precedentes com “Nós”, o argumentista e realizador garante que o seu novo filme nada tem a ver com raça, embora Lupita Nyong’o e Winston Duke interpretem um casal de negros de classe média-alta  que levam os dois filhos à casa de praia que têm na Califórnia. “Vemos facetas daquilo que representa ser afro-americano que não costumam aparecer nos filmes”, disse Jordan Peele, numa entrevista à National_Public Radio, admitindo que mostrar aquela família a fazer tão corriqueiro quanto apanhar sol na praia “tem um excelente efeito, tanto dentro como fora da comunidade afro-americana”.

Mesmo que esses pais e filhos sejam assolados por duplos que escapam de um mundo subterrâneo habitado por muitos milhões de seres como eles, provocando os arrepios que já convenceram muitos a irem ver “Nós”. Ao ponto de a imaginação de Jordan_Peele começar a ser vista como um sinónimo de sucesso de bilheteira, como o norte-americano de origem indiana M. Night Shyamalan conseguiu tornar-se no final do século passado, após a estreia de “O Sexto Setnido”.

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Nos planos de Peele estão novas longas-metragens, mas também vários projetos enquanto produtor – outra faceta numa figura multifacetada que lhe valeu outra nomeação nos últimos Óscares, na categoria de Melhor Filme, por “BlackKklansman: O Infiltrado”, realizado e escrito por Spike Lee -, incluindo uma série de televisão que transporta o fenómeno_“The Twilight Zone” ao século_XXI e também “Lorena”, documentário em quatro episódios sobre a mulher que se tornou famosa em 1993 por cortar o pénis do marido que a agredia fisica e sexualmente. E ainda a série “The Hunt”, encomendada pela Amazon, sobre um grupo que se dedica a caçar nazis infiltrados na América dos anos 70.

Para já, o nova-iorquino de 40 anos, casado com a atriz Chelsea Peretti (da sitcom “Brooklyn Nine-Nine”), com quem teve um filho em 2017, quer ver até onde chegará “Nós”, cujo título original “Us” também pode significar “Estados Unidos”. Mas Jordan Peele tem uma certeza: “Não me vejo a escolher um tipo branco para protagonizar o meu filme. Não é que tenha nada contra tipos brancos, mas já vi esse filme.”

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