Lisiane Lemos, a executiva que abre caminho para mulheres negras no mundo corporativo

By RYOT Studio e CUBOCC | Huffpost Brasil

Lisiane Lemos é a 321ª entrevistada do “Todo Dia Delas”, um projeto editorial do HuffPost Brasil.

“Brinco que sou o melhor business case que posso usar”. Brinca não, fala sério. Aos 29 anos, Lisiane Lemos já tem uma carreira executiva em uma multinacional, como sonhou cinco anos antes, ao entrar na empresa. Mulher, negra, jovem e em um mercado de tecnologia, precisou furar muitas barreiras para chegar aonde chegou e tem muito orgulho de sua trajetória. Além da satisfação pessoal com o seu trabalho, acredita que pode impulsionar outras pessoas como ela no mercado corporativo. “Eu acho que o impacto maior que posso causar é aqui dentro, sendo um “business case”. Quanto mais eu subir, mas eu provo que tem profissionais iguais a mim só esperando uma oportunidade. Quantas outras pessoas estão escondidas aí?”

Lisiane foi “descoberta” pela Microsoft em 2013. Hoje, é especialista em soluções de suporte na empresa, além de ser engajada desde que entrou em projetos de diversidade e inclusão. Ela faz parte do grupo de mulheres e do “Blacks At Microsoft”, espaço para debate sobre o assunto entre funcionários, programa que já existe nos EUA há 30 anos. “Me considero aliada de todos os grupos. Me chamou eu estou ali. Não é porque eu sou uma pessoa negra que eu só posso participar do grupo de negros. Eu tenho que usar a minha força para alavancar todas as minorias que eu puder”.

Quantas outras pessoas estão escondidas aí?

CAROLINE LIMA/ESPECIAL PARA O HUFFPOST BRASIL
Lisiane já tem uma carreira executiva em uma multinacional, como sonhou cinco anos antes, ao entrar na empresa.

E realmente tem muita força e energia para isso. Já dá para sentir de cara, no tom de voz e na postura. Nascida em Pelotas (RS), formou-se advogada com a ideia de ser pesquisadora em Direitos Humanos e de atuar como professora universitária. Já queria mudar o mundo de alguma forma, brinca. “Com a educação em Direitos Humanos você muda a base da sociedade e pensava muito nisso, como poderia educar educadores para trabalhar racismo em sala de aula para que essas crianças não passassem pelo que eu passei”.

Filha de pais militantes e envolvidos com movimentos raciais desde cedo, Lisiane já discutia essas questões dentro de casa. E sentia o preconceito no dia a dia. Bolsista em uma escola particular, sempre foi muito estudiosa e acreditava que esse esforço poderia ser o seu passe para um futuro diferente. “Tinha toda a atmosfera do livro usado, meu uniforme também, todo mundo me olhava diferente então eu achava que se eu me destacasse e fosse mais inteligente, ninguém ia me bater. Foi uma armadura também, mas adorava ler porque a pessoa que não tem grana não viaja então o livro é uma forma de conhecer o mundo, novos culturas, estava sempre na biblioteca e tinha a noção de que só estudando eu sairia daquela cidade, daquele destino, daquele universo. A gente tem que se esforçar mais. Hoje tenho estatística. Naquele tempo era algo mais empírico de que a mulher negra tem que se esforçar mais do que todo mundo porque ela está na base da pirâmide”.

Tinha a noção de que só estudando eu sairia daquela cidade, daquele destino, daquele universo.

CAROLINE LIMA/ESPECIAL PARA O HUFFPOST BRASIL
Ela sonha com uma carreira internacional e de repente em fazer mais um MBA – aquele gosto por estudo que nunca saiu dela.

Assim fez. Estagiou em biblioteca e depois atuou no terceiro setor, em uma ONG em Moçambique. Quando voltou ao Brasil, estava decidida a morar em São Paulo e a trabalhar em uma grande empresa. Parou e fez o planejamento dos passos que tinha que dar para chegar lá – algo que faz com frequência em sua vida, aliás: cria checkbox de tudo que quer e como fará para conseguir. Foi assim que chegou a ONG na África – decidiu que queria trabalhar na empresa e seguiu um planejamento para conseguir esse emprego – e foi assim também que entrou no programa de desenvolvimento de lideranças da Microsoft. Junto com o desenvolvimento de sua carreira, Lisiane deu andamento a outros trabalhos de impactos. Além da atuação nos grupos de diversidade da empresa, co-criou a ONG Rede de Profissionais Negros. Inspirado em modelos americanos, a ideia era promover encontros para networking. Com o tempo, o trabalhou cresceu e o grupo passou a atuar também com qualificação, dinâmicas, trazia convidados para conversar sempre com essa ideia de abrir espaço e fortalecer profissionais negros.

Hoje, ela está afastada das atividades da ONG, mas continua com uma atuação própria voltado ao mercado corporativo. A ideia agora é atuar com mulheres negras. “O interesse de gênero e juventude é muito claro para mim. Os homens ainda são muito privilegiados. A estatística mostra que homens negros em cargos executivos são 4,6% e mulheres negras 0,7%. Então como posso alavancar isso e pensar em profissionais que já estão nas empresas. Todo mundo pensa em jovem, trazer pessoas novas. Mas e uma mulher que já está lá? Como essa profissional negra vai subir, pensar em ser diretora, se projetar para ser presidente? Quero pensar nessa massa que às vezes está escondida, às vezes sem se mexer, para ajudar a subir”.

Esse é o impacto que quero causar.

CAROLINE LIMA/ESPECIAL PARA O HUFFPOST BRASIL
“Quero pensar nessa massa que às vezes está escondida, às vezes sem se mexer, para ajudar a subir.”

Assim, sua ideia é conseguir fazer a ponte entre essas pessoas e profissionais que estão dispostos a ajudar, conversar, orientar, serem mentores. “Meu plano pessoal, de propósito, é ajudar esses profissionais de média gerência a terem os mentores certos e chegar a cargos de diretoria antes de mim. Esse é o impacto que quero causar”. Lisiane lembra que teve essa oportunidade na empresa, mas que nem todos têm as mesmas condições. “O maior desafio é que não conhecemos os códigos do mundo corporativo. Existe uma forma de funcionamento, o plano de carreira, mentoria, conhecer as pessoas certas. Vejo pessoas com boa vontade que querem mentorar alguém, então quero ser o elo entre essas pessoas e as que podem e querem crescer”.

Além disso, Lisiane atua no grupo Mulheres do Brasil no comitê de Igualdade Social focada em liderança de mulheres negras e é embaixadora do I’m the Code, movimento global liderado por africanos que tem o objetivo de desenvolver a educação em áreas de ciências, tecnologia, matemática, entre outras. “A meta é formar 1 milhão de programadoras até 2030. Vamos montar clubes digitais em periferias do país para que meninas reescrevam a jornada delas”.

O maior desafio é que não conhecemos os códigos do mundo corporativo.

CAROLINE LIMA/ESPECIAL PARA O HUFFPOST BRASIL
Ela lembra que teve oportunidade, mas que nem todos têm. E que quer lutar para que isso mude.

Fora isso tudo, ainda tem seus próprios planos também. Sonha com uma carreira internacional e de repente em fazer mais um MBA – aquele gosto por estudo nunca saiu dela. Sabe que o caminho para tudo isso ainda é longo e constantemente precisa lidar com sua ansiedade em ver todas essas transformações concretizadas. Nem sempre o processo é animador. “Às vezes me deixa frustrada entrar em um lugar e não ver um profissional negro, não ver um quadro diverso em empresas que falam de diversidade. Mas meu mentor fala que não é um sprint, é uma maratona. Então essa jornada para transformar não vai ser sozinha, não vai ser rápida e não vai ser indolor”.

Mas vê que o caminho já está trilhado. O mercado e as empresas perceberam a importância da diversidade em seus quadros e tem procurado soluções. Este é o primeiro passo. “É importante estar disposto a repensar coisas para apoiar os profissionais e puxar o mercado para fazer isso. O melhor investimento é na carreira do profissional. Fazer ele ganhar mais, ser promovido, ser um exemplo para a família dele. Esse é o jeito que vamos transformar o mercado”.

E quem sabe, mais frente, o mundo também. Está lá em sua checkbox.

Deixe uma resposta