Masculinidade Negra

A branquitude criou imagens visuais que aproximam a mulher negra, como a “doméstica”, a nós, homens negros, fica uma imagem de violência. 

Por João Bigon e Wesley Teixeira*, em CartaCapital

Que quer o homem? Que quer o homem negro? Mesmo expondo-me ao ressentimento de meus irmãos de cor, direi que o negro não é um homem. (FANON, 1952)

Não podemos reduzir toda essa experiência da masculinidade negra à palmitagem, esse não pode ser um bordão, ou frases de efeito, para explicar a complexidade da construção humana. Pois sim, nós homens negros também somos humanos, com toda sua profundidade, apesar de durante muito tempo não termos sido considerados ou construídos para isso.

Quero começar por aqui, o mundo foi formado para pensar no homem, mas que homem? O homem branco, nós homens negros, não éramos nem visto como seremos humanos, fomos animalizados. Atualmente somos o grupo social que mais morre no Brasil.

Se a branquitude consegue criar imagens visuais que aproximam a mulher negra, como a “babá”, “doméstica”, a nós, homens negros, fica uma imagem “de bandido”, “violento”. Até entre os grupos de esquerda temos dificuldade de sermos aceitos, quantas referências de homens negros vivos nesse segmento você conhece? Desafio a completar os dedos de uma mão.

Nós ainda somos ligados a imagem de quem rouba seu carro, sua bolsa e seu celular. Nós ainda somos os primeiros a serem condenados sem provas quando alguém de militância é agredida ou roubado. O homem negro é inserido desde sua infância num contexto de guerrilha onde ele é a face do inimigo. Isso intensifica e amplia as possibilidades desse homem adquirir atitudes e expressões violentas de sua masculinidade e virilidade.

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Além de estarmos sendo mortos, executados e rotulados como os inimigos públicos do Estado. São as mulheres negras, como nossas mães, irmãs, tias, avós e companheiras que reivindicam nossa vida com um grito ancestral de reivindicação da humanidade que nos foi negada.

Vamos falar sobre os estereótipos racistas de homens negros?

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O primeiro deles é o negão de tirar o chapéu, ele é bom dançarino, musculoso e forte. Este é o que tem pegada e pau grande. Ser homem negro também é não ter grande autoestima, nos legitimamos pelo poder, ter dinheiro, moto, portar uma arma e dançar são formas de conquistas do homem negro, e sim, somos preteridos inclusive por mulheres negras e a fetichização feita por mulheres brancas de classe média, nos levam muitas das vezes a palmitagem como uma das formas de legitimação social, sem dúvida por causa da influência do higienismo, mas ter um relacionamento inter-racial na maioria das vezes nos lembra ainda mais o lugar que nos foi reservado.

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Não quero ser reconhecido como negro, e sim como branco. Ora, […] quem pode proporcioná-lo, senão a branca? Amando-me ela me prova que sou digno de um amor branco. Sou amado como um branco.

Sou um branco. (FANON, 1952)

Mas existe um problema, nem todos os homens negros se encaixam nesse estereótipo do “negão de tirar o chapéu”, para estes outros, o que lhe é reservado? São os “CRIS” da vida, são amigos, engraçados, mas não servem afetivamente e nem como parceiros sexuais, não são uma opção. Frantz Fanon chamava este exemplo, do negro despotencializado, de petit nègre. Um tipo de linguagem específica utilizada para menosprezar, humilhar e infantilizar homens negros:

[…] um branco, dirigindo -se a um negro, comporta-se exatamente como um adulto com um menino, usa a mímica, fala sussurrando, cheio de gentilezas e amabilidades artificiosas (FANON, 1952).

A grande questão é que temos um modelo de masculinidade tóxica, que não foi feita para homens negros, mas é absorvida por nós, sem que gozemos dos privilégios e no fim, estamos morrendo e trabalhando exaustivamente, sem tempo para refletirmos e construirmos nossa sexualidade e afetividade. Isso configura um tipo de desarranjo da nossa personalidade, das nossas infâncias, das nossas experiências enquanto jovens negros. Não estranhamente, todo bairro de periferia tem um homem negro mentalmente desequilibrado, alcoólatra ou dependente químico jogado pelas ruas. Isso não é por acaso, é um projeto de extermínio que vai desde a anulação das nossas mínimas possibilidades de subsistência econômica até o aterramento das nossas subjetividades.

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Há uma zona do não ser, uma região extraordinariamente estéril e árida, uma rampa essencialmente despojada, onde um autêntico ressurgimento pode acontecer. A maioria dos negros não desfruta do benefício de realizar esta descida aos verdadeiros Infernos (FANON, 1952).

PS: Homens negros também são machistas e não é sobre isso a discussão.

*João é jovem preto de 26 anos, professor de História, mestrando em Relações Étnico Raciais e Coordenador Estadual do Movimento Negro Evangélico RJ. É educador popular e pesquisador de Decolonialidade, Espiritualidade Negra Evangélica e Masculinidade Negra Cristã. Wesley é jovem, negro, morador do morro do sapo em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, estudante da UERJ – FEBF, coordena Oi pré vestibular popular +nós, participa do Coletivo Rua_Juventude Anticapitalista. É evangélico pentencostal, membro da igreja evangélica projeto além do nosso olhar.

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