Massacre de Suzano: O submundo da internet celebra a criação de “monstros”

Velório dos corpos de seis das vítimas do Massacre de Suzano. Foto: Felipe Rau/Estadão Conteúdo

Há fóruns e canais de discussão na rede, operando abaixo do radar da maioria das pessoas, que congregam racismo, misoginia, homofobia, pedofilia e ódio em estado puro. Nesses chans (espaços que funcionam sem necessidade de login ou conta e, geralmente, anônimos), narrativas são construídas e buriladas e estratégias de ataques a grupos minoritários organizadas, normalmente usando a internet.

É assustador saber que alguém visto como “normal” e “comum” pode ser capaz, nos contextos histórico, político e social apropriados, tornar-se o que convencionamos chamar de “monstro”. Ou seja, os monstros podem ser nossos vizinhos, nossos colegas de sala ou até nós mesmos. Em casos extremos, basta que tenham o conjunto de estímulos (ou a falta deles) e os contextos certos de frustração, solidão, ansiedade, insegurança. A partir daí, podem aprender a odiar determinados grupos que culpou por seu sofrimento e a transformar esse ódio em violência. Ninguém nasce um “monstro”, torna-se.

A dificuldade de colocar-se no lugar do outro e entender que ele merece a mesma dignidade que sonhamos para nós mesmos não é novo. Mas não estava distribuída pela internet, conectada pelas plataformas de redes sociais, amplificada pela popularização de smartphones. A tecnologia não é a responsável por criar “monstros”. Mas ela catalisa processos que, de outra forma, levariam muito mais tempo.

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Jovens que se reúnem nesses fóruns celebraram as oito mortes do Massacre de Suzano e chamaram os dois rapazes, um de 17 e outro de 25, de heróis. Ao final, um matou o amigo e suicidou-se. Entraram imediatamente para um bizarro Hall da Fama.

Outros que também aplaudiram os homicídios foram alguns fóruns de discussão que reúnem “Incels” (sigla em inglês para “celibatários involuntários”), rapazes frustrados, solitários e inseguros por não conseguirem ter relações afetivas e sexuais, culpando as mulheres e outros homens por isso. Sentem-se perdedores e parte deles atribui isso a si mesmo e outros à sociedade.

Uma parte dos Incel não é violenta, outra sim. E esse segundo grupo somou os dois ao seu panteão junto com o jovem que tinha raiva de garotas e assassinou 12 crianças e adolescentes, entre 12 e 14 anos, em uma escola em Realengo, no Rio de Janeiro, em 2011. E o canadense que atropelou e matou dez pessoas, em Toronto, com uma van em abril do ano passado.

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Como comentei no texto desta quarta sobre o massacre, sentindo-se rejeitados do mundo e refugiando-se em um universo à parte, o limite entre fantasia e realidade torna-se tênue. Alguns chegam a viver inspirados em universos ficcionais. Tal qual uma religião, com deuses e versões distorcidas de moral e de recompensa pós-morte. E, nessa fantasia, cabem “nobres” missões.

Entre as conversas nos grupos mais radicais nas redes, promessas de fazer um “espetáculo” ainda maior que Realengo, Goiânia, Suzano e Columbine e declarações de inveja pela falta de coragem de fazer a mesma coisa. A notoriedade trazida pelo massacre alimenta esse tipo de comportamento. Sabem que haverá uma legião de pessoas que incensará o nome deles.

No caso dos Incel, a culpa pelo fracasso é das mulheres, de “machos-alfa”, do feminismo, da aparência que eles têm, de sua incapacidade de interagir socialmente, dos pais, das escolas, da cultura contemporânea. Em suma, da vida.

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A trajetória pregressa dos dois assassinos precisa ser analisada com calma. Isso não exime o que fizeram, mas saber o nível de distúrbio de ambos contribui para entender melhor o contexto e os gatilhos que levaram a eles a provocar dor e sofrimento a outras famílias e às suas próprias.

Cabe lembrar, ainda, que o suicídio costuma evidenciar o sofrimento intenso de quem o comete. De alguma forma, nossa cultura não conseguiu, para essas pessoas, apresentar motivos suficientes para se manter vivo. Em vez disso, esses jovens encontraram na morte massacrante o sentido da vida. É desesperador pensar que foi na lógica de uma “missão suicida” que ambos encontraram alguma resposta para o desencaixe que viviam.

O bullying sozinho não leva alguém a assassinar outra pessoa. Mas esse não é o único elemento envolvido, principalmente se considerar que muita gente nesses fóruns atua o tempo todo para transformar jovens com problemas de socialização em armas para os seus objetivos.

Precisamos aprimorar métodos a fim de alcançá-los. E, agindo com empatia, tentar buscar criar canais para conectá-los com a complexidade e a pluralidade do mundo. Antes que seja tarde.

Por Leonardo Sakamoto

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