Morre aos 98 anos a atriz Ruth de Souza

Primeira atriz brasileira indicada a um prêmio internacional de cinema, artista também é reconhecida como a primeira atriz negra a construir uma carreira no teatro, no cinema e na televisão no país

O Globo 28/07/2019 – 13:47 / Atualizado em 28/07/2019 – 13:48

Ruth de Souza Foto: Leo Martins / Agência O Globo
Ruth de Souza Foto: Leo Martins / Agência O Globo

RIO — Morreu, na manhã deste domingo, a atriz Ruth de Souza , aos 98 anos. Diagnosticada com pneumonia, a artista havia sido internada, no início desta semana, na Unidade de Tratamento Intensivo do Hospital Copa D’Or, em Copacabana, na Zona Sul do Rio, onde seguia sem previsão de alta médica.

Primeira atriz brasileira indicada a um prêmio internacional de cinema (o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 1954), Ruth de Souza também é reconhecida como a primeira atriz negra a construir uma carreira no teatro, no cinema e na televisão. Na TV Globo, seu último trabalho foi na minissérie “Se eu fechar os olhos agora”, no início de 2019.

A quase centenária atriz nasceu Ruth Pinto de Souza, no dia 12 de maio de 1921. Até os 9 anos, viveu com a família em Porto do Marinho (MG) e, com a morte do pai, ela e a mãe voltaram a morar no Rio de Janeiro, em uma vila de lavadeiras e jardineiras em Copacabana. Já maior, passou a se interessar por teatro e, através da “Revista Rio”, ficou sabendo da existência de um grupo de atores liderados por Abdias do Nascimento, o Teatro Experimental do Negro. Ao se unir ao conjunto, encena “O imperador Jones”, de Eugene O’Neill, em 8 de maio de 1945, no palco do Teatro Municipal do Rio.

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“Foi lindo aquele dia. A gente celebrando nossa estreia, e o mundo festejando o fim da Segunda Guerra Mundial. O centro da cidade estava lotando de gente”, recordou ela, em sua última entrevista ao Extra.

Indicado pelo ator Paschoal Carlos Magno, à época um grande nome das artes, recebeu uma bolsa de estudo da Fundação Rockefeller e passou um ano nos Estados Unidos. Ali, recordou ela, foi um grande passo em sua vida: “Aprendi coisas que nunca teria a oportunidade de aprender ficando no Brasil. Ganhei respeito”.PUBLICIDADE

Indicada por Jorge Amado, em 1948, para o elenco de “Terra violenta”, ela fez sua estreia no cinema; O longa era a adaptação de “Terras do sem fim”, do autor baiano. Com direção do americano Edmond Bernoudy, o filme tem ainda no elenco Anselmo Duarte, Maria Fernanda, Heloisa Helena e Ziembinski. A partir daí, sua carreira na telona ganha projeção e começa a participar de diversas produções nas três grande empresas da época: Atlântida, Maristela Filmes e Vera Cruz. Por seu desempenho em “Sinhá Moça”, Ruth se torna a primeira atriz brasileira indicada para prêmio internacional: o Leão de Ouro, no Festival de Veneza de 1954, em que disputa com estrelas como Katherine Hepburn, Michele Morgan e Lili Palmer, para quem perde por dois pontos.

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Em entrevista ao GLOBO, Ruth atribuiu seu sucesso à “generosidade das pessoas”:

— Acho que as pessoas foram generosas comigo. Fiz teatro e cinema. Quando acabava um contrato, já surgia um outro convite e eu recomeçava a trabalhar no dia seguinte. Repito: nunca fiquei parada. E isso porque, antigamente, a cor da pele era uma característica muito marcante. Hoje, graças a Deus, a situação melhorou.

Após anos se dedicando ao cinema, passa por radionovelas, teleteatros da Tupi e da Record até que, em 1696, é contratada pela Rede Globo, de onde foi funcionária até morrer. Mesmo aposentada, a veterana continuava nos quadro de funcionários da emissora carioca.PUBLICIDADE

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Na Globo, integra o elenco da novela “A cabana do Pai Tomás” (1969), sendo a primeira atriz negra a protagonizar um folhetim.

— É uma alegria imensa ter o trabalho reconhecido. As pessoas dizem que abri portas, mas nunca parei para pensar sobre o assunto. Trabalhei muito nesses 70 anos de carreira. Nunca parei, o que é algo difícil para qualquer ator no mundo, ainda mais para um ator negro — disse ela.

O maior prêmio do cinema brasileiro veio em 2004. Ao lado de Léa Garcia, Ruth de Souza ganhou o Kikito de melhor atriz no Festival de Cinema de Gramado por sua atuação no filme “Filhas do vento”, de Joel Zito de Araújo.

Por anos, continuou participando intensamente de produções no cinema e na TV — e ganhando muitos prêmio —, sendo sua última aparição em uma trama em “Se eu fechar os olhos agora ” (2019)

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