Mulheres pobres, negras e “loucas” invisibilizadas na mídia

Por Bruna Martins Oliveira | Observatorio da imprensa

Hospital Colônia de Barbacena. (Foto: Wikimedia)

Nas universidades de jornalismo, a gente costuma (ou deveria) aprender sobre a relevância da profissão e sua função social. Gosto da frase da jornalista Eliane Brum, que diz o seguinte: “Para o repórter, cada ser humano é uma experiência única e irrepetível, que será escutado em suas singularidades”. Mas será que isso de fato acontece? Será que vemos as singularidades e diversidades nas capas de jornal ou depende do contexto?

O teórico e educador Paulo Freire já dizia: “Não existe imparcialidade. Todos somos orientados por uma base ideológica. A questão é: sua base ideológica é inclusiva ou excludente?” Nas aulas de teoria da comunicação, nós aprendemos um conceito chamado Teoria do Agendamento, ou Agenda Setting, dos pesquisadores Maxwell McCombs e Donald Shaw.

De forma geral, essa teoria diz que a mídia se pauta nos acontecimentos do momento, aproveita as oportunidades e, com isso, acaba agendando as discussões. Esse agendamento pode ser interpretado de várias formas. Afinal, todo veículo tem sua linha editorial (suas diretrizes políticas, ideológicas, que selecionam o que vira notícia conforme o público-alvo do veículo). Portanto, esse agendamento é condicionado aos filtros. A mídia é um filtro pelo qual a sociedade pauta os assuntos. Sendo assim, o que não é noticiado e não está visível, não existe.

Para falar sobre invisibilidade, vamos pensar no campo da saúde mental hoje. A área está passando por uma série de reviravoltas e mudanças. Notícias são dadas a todo momento em relação aos cortes de recursos dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e às mudanças da Política Nacional de Saúde Mental e das diretrizes da Política Nacional sobre Drogas. Diante disso, entender essas mudanças da perspectiva de ouvir e refletir sobre elas em relação às pessoas que são mais afetadas e invisibilizadas (ou pouco representadas) pela grande mídia é fundamental.

Dentro do jornalismo, a jornalista e autora do livro Holocausto Brasileiro (2013), Daniela Arbex, é uma das poucas vozes que discutem em profundidade a temática da saúde mental e falam do genocídio de 60 mil pacientes que estavam no Hospital Colônia de Barbacena (MG), administrado na época pela Fhemig (Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais). Recentemente, a divulgação de uma nota técnica por meio de uma portaria do Ministério da Saúde deu aval para a compra e a volta do eletrochoque como uma forma de tratamento para as pessoas que estão nesse contexto.

A nota gerou alvoroço e está sendo criticada por vários especialistas dessa área, sobretudo em um cenário onde o Brasil tem uma Reforma Psiquiátrica recente (estamos falando de apenas dezoito anos da Lei 10.216, de 2001). Diante disso, qual o papel da mídia ao tratar desses assuntos? Quem são as pessoas tratadas pelos CAPS e internadas nos manicômios judiciários ou nos hospitais psiquiátricos e hospitais-dias? É importante pensar na representação da loucura em um contexto no qual há inúmeras discussões sobre quem são as pessoas chamadas de loucas e posicionamentos distintos sobre a saúde mental – e certamente existem interesses da indústria farmacêutica. Afinal, as pessoas em sofrimento psíquico ou com algum diagnóstico são consultadas para essas mudanças e ouvidas pelos veículos de comunicação? Há várias pesquisas e dados atualizados de forma constante falando da depressão como doença do século e do número de pessoas com diagnóstico ou sofrimento mental.

Mas, nesse cenário, entender o perfil dos grupos vulneráveis a essa mudança é importante. Com o recorte de saúde mental e gênero, pensando nas mulheres, a Organização Mundial de Saúde (OMS), por exemplo, afirma que entre os diversos fatores que afetam a saúde mental das mulheres estão condições sociais e econômicas, acesso à cultura e aos direitos básicos, violência contra a mulher e desigualdade de gênero, além de racismo e outras discriminações.

Em 2016, a OMS publicou um Relatório sobre a Saúde Mental afirmando que a mulher adoece mais devido aos seus papéis múltiplos na sociedade (mães, educadoras, trabalhadoras, cuidadoras, esposas ou tudo isso junto). Não há como colocar nesse espaço dados descontextualizados, mas essas são questões para refletir, inclusive do ponto de vista de representatividade. Quem são as mulheres periféricas, mulheres negras, mulheres pobres e mulheres que não possuem acesso a serviços básicos de saúde, educação e direitos na imprensa? E quando essas mulheres são presas ou estão em serviços de atendimento da saúde mental?

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Para refletir sobre isso, este artigo conta também com contribuições das especialistas Rachel Gouveia Passos, pós-doutora em Serviço Social e Políticas Sociais pela Unifesp; doutora em Serviço Social pela PUC/SP e professora da Escola de Serviço Social da UFRJ, e Melissa de Oliveira Pereira, doutora em Saúde Pública pela Fiocruz e professora de psicologia do Centro Universitário IMB. Como as discussões são profundas e estão em contextos distintos, é possível conferir a entrevista na íntegra por meio deste link.

Acesso à informação e reprodução de desinformação: desafios e responsabilidades

“A figura do louco (no singular e masculino) acaba por invisibilizar uma série de outras situações. Tem que lançar luz sobre o hospício e a comunidade terapêutica ter cor e raça, classe social, e isso incidir sobre as mulheres. Em especial, às mulheres lésbicas e trans, de forma particular”. (Melissa de Oliveira Pereira, doutora em Saúde Pública pela Fiocruz, psicóloga e professora de psicologia do Centro Universitário IMB.)

Ainda dentro da universidade, aprendemos que uma boa fonte é tudo no jornalismo. No entanto, em um cenário onde o termo imparcialidade jornalística é cada vez mais questionado, o critério de seleção para essas fontes também pode ser um ponto de reflexão. Diante disso, como falar sobre saúde mental pensando na questão das mulheres pobres, periféricas e negras? Como não reproduzir preconceitos, estigmas sociais ou saber quando usar termos adequados para não gerar mais desinformação? O teórico Maffesoli fala muito na questão do imaginário social e como ele constrói as percepções da nossa sociedade no sentido de imaginário coletivo. Logo, se o imaginário é uma construção coletiva, não gerar desinformação é o mínimo para não reproduzir preconceitos.

Uma das formas de não reproduzir esses preconceitos é a checagem jornalística. E, além da checagem das informações, é importante reconhecer a ignorância diante das temáticas e assumir que a mídia tem um papel na construção desse imaginário. Diante disso, como pensar a “loucura” e sua representação com o recorte de mulheres? A saúde mental pode afetar todas as mulheres. Mas trazer o debate pensando no recorte de mulheres pobres, periféricas e negras é algo importante quando a grande mídia traz essas discussões. E isso passa, muito, pela educação e pela diversidade que (a meu ver) deveriam ser mais abordadas nos cursos de jornalismo considerando que o silenciamento e os estigmas afetam as pessoas mais vulneráveis. Nesse cenário, o acesso à informação e à conjuntura midiática deve ser analisado. Quando o recorte da saúde mental foca em mulheres pobres, negras ou transgênero, é preciso refletir de que forma nós, enquanto comunicadores, estamos divulgando dados e notícias sem pensar que as estatísticas são histórias reais. Nesse cenário, Rachel Gouveia Passos, pesquisadora e organizadora da coletânea Luta Antimanicomial e Feminismos: Discussões de Gênero, Raça e Classe, traz contribuições valorosas sobre a estrutura da mídia e como isso pode influenciar a desinformação midiática.

“Particularmente, acho que se a gente for generalizar a mídia, vai entender que ela tem uma função política/social/econômica, ideológica. Ela não é neutra, não é isenta. Entendendo isso, ela vai ser estruturada e logo pode reproduzir a lógica machista, sexista, LGBTFóbica e por aí vai. Se ela (mídia) é atravessada por todos esses determinantes, também vai perpetuar um certo apagamento. Também vai permitir que grupos sejam socialmente minoritários (e não quer dizer que sejam minorias, no sentido numérico, mas socialmente e historicamente minoritários porque não conseguem alcançar espaços e lugares de poder). Nós apostamos muito na mídia alternativa, que é fundamental para romper com essa lógica.” (Rachel Gouveia Passos, pós-doutora em Serviço Social e Políticas Sociais pela Unifesp; doutora em Serviço Social pela PUC/SP e professora da Escola de Serviço Social da UFRJ.)

É certo que todo veículo de comunicação tem uma linha editorial, um formato para divulgação das reportagens, notas e notícias, além de limitações estruturais. No entanto, usar isso como justificativa para reproduzir a desinformação é, no mínimo, má fé – e assumir não só a ignorância, mas usar do discurso de “imparcialidade” e critérios de noticiabilidade para prestar um desserviço ao jornalismo e à sociedade. Voltando ao cenário da saúde mental, falar que a cada 40 segundos ocorre um suicídio no mundo (no Brasil, um a cada 45 minutos) é uma estatística (divulgada pela Organização Mundial de Saúde, OMS) assustadora. Mas será que reduzir às estatísticas essas vidas em sofrimento, interrupção ou com diagnóstico traz visibilidade para a discussão da temática?

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Quando os dados se voltam para as mulheres, fazer o recorte das pobres, vulneráveis, periféricas e negras é fundamental para entender como a invisibilização e a reprodução de estigmas podem perpetuar uma falsa pluralidade. Afinal, jornalistas do Brasil, quem são as mesmas pessoas ouvidas? Quem são as mesmas pessoas silenciadas? O que é nos colocado como referência de fonte? E o que não é? Se saúde mental já é uma discussão que envolve temas complexos, pensar no perfil das mulheres que estão adoecendo ou sendo condicionadas ao adoecimento é importante. Os recortes de gênero, raça e classe, nesse sentido, podem ter dados variáveis, conforme a estrutura/localização das mulheres atendidas pelos serviços de saúde mental (CAPS, hospitais, comunidades terapêuticas). Mas as mulheres negras e pobres são historicamente as mais afetadas pela institucionalização não só na saúde mental, mas em outros espaços que causam sofrimento.

Não é à toa que publicações como o Dossiê das mulheres negras: Retrato das condições de vida das mulheres negras no Brasil, divulgado pelo Instituto de Pesquisa e Econômica Aplicada (IPEA), trazem essas reflexões. Outras pesquisas, como o Painel de Indicadores do SUS com o recorte temático Saúde da População Negra, publicado em 2016 pelo Ministério da Saúde, também apontam que existe racismo na área de saúde e no estado de saúde mental. Então, falar de saúde mental na mídia, pensando na questão da mulher, é pensar também em como a mulher pobre e negra é silenciada e pode ter sua saúde abalada não só pela opressão de gênero, mas pelo racismo e outras variáveis.

Como fica a representatividade midiática das mulheres institucionalizadas e chamadas de loucas, pensando nas mulheres periféricas, pobres e negras? Antes mesmo do recorte de saúde mental e das estruturas e encarceramento, é preciso inclusive refletir na (in)visibilidade midiática dessas mulheres, silenciadas historicamente, escravizadas e com direitos ainda mais limitados do que as mulheres de outra cor e classe social.

“Nós, mulheres negras, sempre fomos as escravas nas novelas, as faxineiras, as babás, e ter uma protagonista é dar visibilidade a uma luta e também a uma representatividade. Não queremos estar apenas sendo representadas, queremos que essa lógica seja rompida. Mesmo que a grande mídia viabilize, pelo sentido do empoderamento não há uma ruptura daquilo que estrutura todo o processo.” (Rachel Gouveia Passos, pós-doutora em Serviço Social e Políticas Sociais pela Unifesp; doutora em Serviço Social pela PUC/SP e professora da Escola de Serviço Social da UFRJ.)

Pensar e repensar a invisibilidade midiática diante de mulheres que são silenciadas historicamente pelo gênero, pela cor, pela classe social e também pela condição de “louca” ou institucionalizada é importante.
A necessidade de abandonar o complexo de Deus que existe no jornalismo e de ouvir mais do que apontar e falar é importante para não corrermos o risco de abreviarmos as histórias das pessoas às estatísticas. Portanto, falar das mulheres no recorte da loucura é, antes de tudo, ter a responsabilidade social e humana de ouvi-las para evitar a desinformação. Nós temos ouvido com certa frequência a expressão “lugar de fala”, da filósofa, acadêmica, pesquisadora e escritora brasileira Djamila Ribeiro rodando as redes sociais e os espaços de participação. Porém, mais do que tudo, é preciso ouvir, ainda mais se tratando do jornalismo.

O silenciamento como reprodução dos estigmas

Se o acesso à informação é algo com variáveis múltiplas, repensar a reprodução de silenciamentos e preconceitos é importante. Quantas vezes nós assistimos na TV, ouvimos no rádio ou lemos nos portais matérias que reproduzem preconceitos? Se pararmos para pensar na produção da mídia enquanto cinema, também não é difícil associar a figura da loucura aos estigmas socialmente produzidos. Nesse cenário, uma alternativa para sair da caixinha, segundo pesquisadoras como Melissa Oliveira, é:

“Poder vislumbrar possibilidades no campo de saúde mental que vão além dos espaços de isolamento. Temos que viabilizar a figura da loucura não com periculosidade mas, inclusive, à interseccionalidade. Porque a figura do louco (singular e masculino) acaba por invisibilizar uma série de outras situações. Tem que lançar luz sobre o hospício e a comunidade terapêutica ter cor e raça, ter classe social e incidir sobre as mulheres, em especial as lésbicas e trans.” (Melissa de Oliveira Pereira, doutora em Saúde Pública pela Fiocruz, psicóloga e professora de Psicologia do Centro Universitário IMB.)

Considerando que a saúde mental por si só já é invisibilizada midiaticamente, qual é o desafio de entendê-la em suas especificidades? O acesso à saúde é constitucional. Mas como falar de acesso a terapia e saúde mental nos lares onde não chega nem o direito à alimentação, à educação e ao viver?

“Não é curioso que a única política que tenha chegado seja o manicômio? Essa é uma política, é uma estratégia. Discutir essa problemática entendendo as questões de gênero, classe e raça é não só fazer uma reflexão intelectualizada ou acadêmica. Ela envolve uma revisão dos nossos lugares no mundo e de que lugares a gente fala, a gente tem vantagens sociais e quem está nas desvantagens sociais a partir desses lugares. […] São essas mulheres consideradas loucas que são institucionalizadas… são internadas. Elas também têm muito a ensinar pra gente e podem falar por si próprias.” (Melissa de Oliveira Pereira, doutora em Saúde Pública pela Fiocruz, psicóloga e professora de Psicologia do Centro Universitário IMB.)

Diante das complexidades estruturais da mídia e também dos serviços de saúde mental, é importante entender que toda representatividade na cobertura de saúde, sobretudo na saúde mental, tem que ter um olhar atento.

“Nós não estamos negando sofrimento, não é negar que as pessoas sofrem e adoecem, precisam de suporte. Estamos trazendo reflexões para apontar outros caminhos e possibilidades porque essa sociedade produz sofrimento e adoecimento e desrespeita as singularidades.” (Rachel Gouveia Passos, pós-doutora em Serviço Social e Políticas Sociais pela Unifesp; doutora em Serviço Social pela PUC/SP e professora da Escola de Serviço Social da UFRJ.)

Quem são os donos da mídia?

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Dados da Secretaria de Comunicação do governo divulgados pela Pesquisa Brasileira da Mídia apontam que a TV é o meio preferido de 63% dos brasileiros, enquanto a internet tem 26% da preferência. Diante disso, não há como discutir como a estrutura midiática ajuda a reproduzir invisibilidade, estereótipos e preconceitos. Nesse cenário, uma pergunta que pode gerar ainda mais inquietação a jornalistas (e profissionais da saúde mental, nesse caso) é: quem são os donos mídia?

Segundo um estudo do Monitoramento de Propriedade da Mídia, feito em parceria com a organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF), cinco famílias controlam mais de 50% dos veículos de comunicação no Brasil. A pesquisa completa pode ser acessada aqui. Diante disso, como ignorar os interesses econômicos, as diretrizes políticas e institucionais nos veículos tradicionais? Não há nenhuma pretensão de nomear os profissionais da grande mídia como vilões ou mocinhos. É preciso parar de romantizar o discurso de igualdade no tratamento e interesse público quando diversas determinantes com seus interesses atravessam os debates, sobretudo das excluídas e invisíveis, nesse caso.

Se há interesses, se há diretrizes e as estruturas hegemônicas atravessam esses espaços, há como todo mundo estar nas páginas do jornal? E as mulheres pobres, com suas diversidades de gênero, classe, raça e cor? E as chamadas de loucas? Pensar na mídia como um canal que influencia o imaginário social é pensar em responsabilidade social. Ter responsabilidade social e ética é entender que o que está colocado no Código de Ética dos Jornalistas deve ser seguido – ou, pelo menos, deveria. Em que momento nós nos tornamos especialistas em tudo sem confrontar todas as realidades?

Quando a imprensa noticia algo de forma equivocada ou reduz de forma irresponsável a questão da saúde mental, por exemplo, qual é a diretriz para isso? Como escolher as fontes de informação com responsabilidade, considerando que os debates de gênero, raça e classe, nesse contexto específico, estão pautados em raízes profundas e apagamento histórico e midiático? Precisamos colocar na roda. E isso se torna um convite aos jornalistas e profissionais da saúde.

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Bruna Martins Oliveira é jornalista formada pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. É autora da monografia O transtorno bipolar na perspectiva da mídia: uma análise do Paraná no Ar. Tem experiência no jornalismo de rádio (Grupo Lumen de Comunicação) e trabalhou como repórter freelancer na Secretaria do Esporte e do Turismo do Paraná e no jornal Gazeta do Povo. Este artigo foi publicado originalmente na coluna Coloca na Roda, no OCI.

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