‘Não existe essa tal de democracia racial’, diz Zezé Motta

Por Amanda Queirós – Metro São Paulo

Esta é uma semana cheia para Zezé Motta. Nesta quarta-feira (16), às 17h, a atriz fala sobre seu papel como referência para mulheres negras no Sesc Carmo, em um papo gratuito dentro de um evento que celebra Rosa Luxemburgo. Pouco depois, às 19h, ela participa, na Livraria Martins Fontes (av. Paulista, 509), do lançamento de sua biografia, “Zezé Motta – Um Canto de Luta e Resistência”, assinada por Cacau Hygino.

Na sexta (18), às 21h, é a vez de apresentar seu 14º álbum, “O Samba Mandou Me Chamar”, em show no Teatro J. Safra (r. Joseph Kryss, 318, Barra Funda, tel.: 3611-3042; de R$ 40 a R$ 100). E, ainda este ano, ela volta ao cinema, onde se consagrou em Xica da Silva, em “M8 – Quando a Morte Socorre a Vida” (1976), novo filme de Jeferson De.

Qual sua relação com o samba e por que cantá-lo agora?

Desde o meu segundo disco, começaram a dizer que minha voz encaixava bem com samba. Na época, não concordei, tinha medo de ficar presa a um rótulo. Mas, depois de 50 anos, já cantei todos os compositores que queria: Milton Nascimento, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Francis Hime, Chico Buarque, Luiz Melodia… Daí que comecei a namorar um sambista (Cristiano Moreno). Durou cinco anos, mas acabei entrando nesse mundo.

A escolha do repertório prioriza composições não tão conhecidas. Por quê?

Pensamos em fazer um disco de clássicos, mas foram aparecendo coisas tão legais! Preparamos uma feijoada no Teatro Rival [no Rio] e surgiu muita gente boa. Passamos a tarde gravando sambas e o complicado, depois, foi escolher. O Arlindo Cruz mandou uma música linda, tenho participação do Xande de Pilares, do Fundo de Quintal…

Como o teatro afeta sua faceta de cantora?

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Sempre levei um pouco da atriz para a música e vice-versa. As duas se entendem bem. Um crítico me chamava de “cantriz”, e é assim que me sinto. Como não sou sambista, carrego no lado atriz.

Como você lida com o fato de ser uma referência para as mulheres negras?

Quando as coisas começaram a dar certo para mim, eu era muito questionada sobre racismo. Eu sentia que tinha coisas erradas, mas não tinha um discurso preparado. Fiz um curso de cultura negra com a saudosa Lélia Gonzaglez, que disse: “Não temos mais tempo para lamúrias. Temos que arregaçar as mangas e virar esse jogo”. Isso foi definitivo para mim, e entrei no movimento negro de cabeça, usando a mídia para denunciar essa tal de democracia racial que não existe.

Como é poder ser dirigida por um cineasta também negro como Jeferson De?

Já vou para a minha quarta experiência com ele. Fico emocionada. Ele me chama e vou sem pestanejar. Acho que é disso que a gente precisa: mais escritores, produtores e cineastas negros. A gente está vendo uma mudança ainda muito tímida, mas temos muita luta pela frente.

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