“O que aprendi com Ruth de Souza”

Há quase 10 anos tive o primeiro contato com a atriz Ruth de Souza, atualmente com 98 anos. Faríamos uma entrevista exclusiva para TV Brasil. A fragilidade denunciada pela idade se dissipou nos primeiros minutos, ainda na portaria da empresa. A atriz estava aborrecida porque a recepcionista, também negra, não a reconhecia. Não, dona Ruth não estava tendo um ataque de estrelismo. Com voz firme, em tom grave e volume baixo me dizia que este era um motivo de nós negros não avançarmos. Precisávamos nos apoiar. Tínhamos que ser solidários uns aos outros. Era o que os brancos faziam.

A jornalista Luciana Barreto e a atris Ruth de Souza

Ao longo dos 70 anos de carreira, Ruth de Souza mexeu com barreiras que pareciam intransponíveis e abriu caminhos. O segredo está na tríade que ela segue e ensina: “educação, postura e comportamento”.

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Em 1945, ela foi a primeira atriz negra a atuar no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Fez parte do Teatro Experimental do Negro, liderado por Abdias Nascimento. Estudou teatro nos Estados Unidos. Quando voltou ao Brasil, estreou também no cinema. E nunca mais parou. “Trabalhei muito e Deus foi muito generoso comigo”, reconhece.

Ruth fez mais de 30 filmes e dezenas de novelas. Trabalhou para as maiores companhias cinematográficas do Brasil. E foi também a primeira atriz brasileira a receber uma indicação em um festival de cinema internacional: o Leão de Ouro do Festival de Veneza, em 1954. Traçava grandes metas. “Eu sempre sonhei em ver o negro fazendo o primeiro papel e produzindo como os negros americanos fazem”.

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Ruth nunca viveu o papel de uma empregada doméstica. Eu pergunto o motivo e ela me atropela: “Chega da imagem da mulher negra de avental e sempre servil”, desabafa. A atriz reconhece a importância do trabalho doméstico, mas prefere encenar os papéis que, na vida real, são desafios para a mulher negra. “Eu procuro com o meu trabalho mostrar uma imagem digna da mulher negra”.

A impetuosidade é uma qualidade dos pioneiros. Mesmo com corpo franzino, Ruth de Souza ainda é altiva e forte. Reclama de quem não é. “Nós, os negros, somos culpados por não brigar. Não ir em frente. Ser dócil demais. Não é pegar em armas. Brigar por morar bem, comer bem, educar seus filhos bem”, esbraveja. Para ela, foi a fama de brigona que a livrou de histórias de racismo. “Não tive [uma história de racismo] porque eu brigo. Eu entro em um lugar e a pessoa não tem coragem de dizer pra mim que não posso porque sou negra. Ninguém pode dizer não pra você.”

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Notícia Preta

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