O teatro que conta a história

CRÍTICA TEATRAL
ESPETÁCULO INFANTIL: “QUANDO EU MORRER, VOU CONTAR TUDO A DEUS”

Numa manhã de sábado você se dirige ao teatro do SESC Belenzinho em SP, com a família para assistir um espetáculo e assim se informar e se divertir com a cultura e arte teatral.
O espetáculo “Quando eu morrer, vou contar tudo a Deus” aborda tanto a cultura afro quanto o problemático e atual tema sobre os refugiados, tudo isso em um formato direcionado ao publico infanto-juvenil de todas as cores.
O texto de Maria Shu foi criado a partir da história real do garoto Abou, de oito anos, que foi colocado dentro de uma mala de viagem com o intuito de extrapolar barreiras divisórias burocráticas e afim de encontrar a união,a liberdade e em paralelo com nossa atual situação de imigração mundial, encontrar também dignidade.
A história real de Abou e da sua mala transformada em cão imaginário, serve como uma forte e profunda metáfora para abordar e abrir diversos questionamentos.
Como ponto de partida e com perfil de texto literário, a narrativa da autora é dramática e impressiona quanto ao conteúdo e poder descritivo, porém dramaturgicamente (na fabricação de texto para teatro) encontramos diversos pontos de entrave que dificultam a transposição para a ação cênica. Isso não torna o texto um problema, mas sim um desafio à direção.
Talvez devido ao formato textual estar mais intimamente ligado à palavra escrita do que a palavra encenada ou tentando facilitar o entendimento do texto por parte do público infanto-juvenil, a direção se remete no sentido a descrever os acontecimentos flertando profundamente com a linguagem de contação de histórias e superficialmente com a linguagem teatral.
A narrativa descritiva permeia a totalidade do espetáculo e é discorrida erroneamente como ponto estético principal.
O cenário, os objetos de cena manipulados e o figurino neutro são contaminados pela ideia plástica da estética de contação e tudo parece ter saído de uma contação de histórias em grande escala. Essa é uma tendência atual demasiadamente usada no teatro contemporâneo infantil: misturar a concepção cênica do teatro convencional com a de contação, talvez por se tornar uma saída mais econômica para produção teatral; porém essa é uma solução questionável .
A economia do orçamento de produção se transforma num prejuízo artístico evidente nesse caso: a forma de se lidar com as interpretações, o cenário e figurino se tornaram superficiais diante de uma história tão profunda e significativa.
O público se perde em meio à complexidade literária do texto e a concepção não o auxilia na compreensão dos fatos e acontecimentos dramaturgicos.
O cenário não tem muita utilidade nem personalidade cênica, os bonecos manipulados não tomam a vida que deveriam tomar para a criação lúdica das cênicas em que aparecem e as canções (os melhores momentos onde sentimos o lado espiritual e lendário africano) , mesmo assim, não acrescentam ao caminhar da história.
Os recursos teatrais nas mãos da direção (como a iluminação, as musicas ao vivo e as marcações de cena) poderiam ser melhor utilizados, o que ajudaria na história contada.
Aquele intuito inicial de ir ao teatro para se divertir e se instruir perde-se nesse formato e nota-se que com o decorrer do espetáculo teatral o público, principalmente o infantil, vai se desinteressando até os agradecimentos finais.
A sensação que fica é que a montagem, inspirada no garoto Abou que explorou sua imaginação num momento crucial, utiliza o recurso de deixar para a imaginação do espectador , como aquele que lê um livro, a criação da história que deveria passar em frente aos seus olhos.
Talvez se o coletivo utilizasse mais construções cênicas formais ou invés de jornadas narrativas tivesse mais sucesso em recriar os conflitos internos do personagem principal, tão fundamentais para refletirmos sobre identidade, cultura, liberdade e fronteiras, o resultado fosse mais positivo, apesar da ótima intenção, da ótima ideia central e do ótimo texto.
Todas as histórias são sagradas mas a imaginação não deveria ser o único recurso.

SAIBA MAIS.:  CULTNE DOC - Awurê - Instrumental

Avaliação: ⭐⭐ Regular

 

texto: Maria Shu

direção: Ícaro Rodrigues

elenco: Jhonny Salaberg, Filipe Ramos, Marina Esteves,Ailton Barros (Coletivo O Bonde)

em cartaz: SESC Belenzinho / SP

Portal Afro

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