Oficina de leitura sobre Carolina de Jesus aproxima Maré (RJ), Moçambique e Angola

Exposição “Da Maré ao Canindé, inspiração para as periferias” chega em maio ao Festival Feminista de Lisboa

Por Clívia Mesquita, do Brasil de Fato

Montagem que faz diálogo entre obra de Carolina Maria de Jesus e realidade na Maré passou por países africanos de língua portuguesa em 2018 / Pablo Marcelino

O primeiro contato com a obra da escritora Carolina Maria de Jesus (1914-1977) no mestrado em Literatura Brasileira na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) foi o pontapé para Miriane Peregrino, 38, iniciar um projeto de incentivo à leitura no Museu da Maré em 2013, o “Literatura Comunica!”.

Desde então, jovens de diversas comunidades do Conjunto de Favelas na zona norte do Rio de Janeiro passaram a conhecer a figura de uma mulher negra, pobre, favelada, com três filhos pequenos e catadora de papel que ficou famosa por seus escritos sobre a dura rotina marcada pela fome na favela do Canindé, em São Paulo, nos anos 1950.

“Desde o primeiro momento me encantei pela história da Carolina. Pela força que ela sempre teve e porque eu via muitas mulheres da favela nela. Cada relato era um aprendizado e um choque de realidade”, conta a estudante de jornalismo e bolsista do projeto Raíza Barros, 22, moradora da Maré.

A exposição “Da Maré ao Canindé, inspiração para as periferias”, lançada em comemoração ao centenário da autora em 2014, é resultado da leitura em roda de obras como “Quarto de Despejo: diário de uma favelada (1960)” e “Casa de Alvenaria: diário de uma ex-favelada (1961)”. A montagem relaciona passagens dos livros sobre direito à moradia, fome, racismo, educação, abastecimento de água, política e reforma agrária com fotografias atuais da Maré.

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Raíza foi uma das organizadoras da exposição e vai levar a roda de leitura para a segunda edição do Festival Feminista de Lisboa, em Portugal. O evento auto-gerido e sem fins lucrativos acontece durante todos os finais de semana de maio deste ano. Para ajudar a custear a passagem aérea e a locomoção da estudante foi aberta uma campanha de arrecadação na internet, qualquer pessoa pode colaborar para atingir a meta de cinco mil reais.

Ajude Raíza a ir no Festival Feminista de Lisboa

Conexão Maré, Angola e Moçambique

Por conta de uma oportunidade de intercâmbio no doutorado, a coordenadora do projeto “Literatura Comunica!” viajou para Angola em 2018 e repetiu a dinâmica das rodas de leitura na capital Luanda e depois em Maputo, Moçambique. Nos países africanos de língua portuguesa, ela se deparou com a atualidade da literatura de Carolina Maria de Jesus.

“A desigualdade social, infraestrutura, saneamento básico, abastecimento de água, luz, são aspectos que a Carolina traz no livro de uma favela no Brasil nos anos 50 que em Luanda ainda é atual. Em Moçambique foi a mesma relação, as pessoas se identificaram muito. Agora é a vez de Portugal”, declara Miriane.

Na ocasião, o morador da Maré Pablo Marcellino, 22, que participou das rodas de leitura, foi convidado para a exposição que também homenageou sua tia Ana Maria de Souza no Centro Cultural Brasil-Angola (CCBA). Conhecida como primeira escritora negra da Maré, também poetisa e artista plástica, Ana Maria faleceu em 2016.

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“Ela tinha um sonho de ser conhecida e a exposição foi uma oportunidade de homenagear ela e a Dona Orosina [uma das primeiras moradoras da Maré]”, diz Marcellino que é ator, roteirista e colunista do jornal Voz das Comunidades. “Uma das coisas mais interessantes de conhecer Carolina é que é uma personagem muito típica na favela até hoje, tanto no comportamento quanto nas vivências”, destaca.

Literatura Comunica! em 2019

O jornal “Literatura Comunica!” está em fase de montagem e vai reunir textos dos bolsistas e pessoas que participaram da roda, com depoimentos e textos de críticas literárias com foco na divulgação de autores populares. A expectativa é lançar o material antes da viagem da Rízia para Portugal, em maio, e levar exemplares da publicação.

A primeira roda de leitura deste ano foi direcionada aos professores da Escola Municipal Bernardo Vasconcellos, no Complexo da Penha (RJ), para divulgar Carolina Maria de Jesus e autores populares em sala de aula. Desde 2015, as oficinas também acontecem em vários pontos da cidade além de outros estados como Espírito Santo, Rio Grande do Norte e Pernambuco.

O “Literatura Comunica!” foi contemplado com o Prêmio Todos Por Um Brasil de Leitores (2015) e o Prêmio Culturas Populares (2018) do Ministério da Cultura (MinC), extinto em janeiro de 2019 como uma das primeiras medidas do governo Bolsonaro. Para Miriane, a precarização das escolas e a falta de editais sobre incentivo, difusão da literatura brasileira e bibliotecas comunitárias torna ainda mais difícil o trabalho.

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“Com o Ministério da Cultura a gente ainda tinha esperança de tentar alguma coisa, agora é muito improvável que se volte para literatura e esse tipo de projeto”, constata a doutoranda em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Olhar para o campo

Apesar de ser conhecida como favelada mundo afora, Carolina Maria de Jesus nasceu e foi criada no campo, no interior de Minas Gerais. A migração penosa da autora remonta a própria formação das favelas nas grandes cidades. Mesmo com pouco estudo formal, indo só até a segunda série primária, Carolina era atenta aos acontecimentos políticos da época e autodidata.

A crítica e o questionamento sobre a desigualdade social são constantes nos seus diários: “Porque é que o governo não distribui as terras para o povo?”, pergunta no seu segundo livro “Casa de Alvenaria: diário de uma ex-favelada (1961)”.

Segundo Miriane, a autora aborda o tema da reforma agrária só que em outras palavras. Mesmo na favela, Carolina continua uma mulher do campo. Por isso, surgiu a ideia de organizar rodas de leitura nas escolas dos assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O novo projeto caminha para se concretizar no Rio Grande do Sul ainda em 2019.

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