Policial militar reformado e ex-PM são presos no Rio suspeitos de matar Marielle Franco

RIO – Dois dias antes de completar um ano o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, a polícia predeu na madrugada desta terça-feira, 12, dois suspeitos do crime. O caso aconteceu em 14 de março de 2018 no Rio de Janeiro.

Ronie Lessa, policial militar reformado, e Elcio Vieira de Queiroz, expulso da Polícia Militar, foram denunciados por homicídio qualificado e por tentativa de homicídio de Fernanda Chaves, uma das assessoras de Marielle que também estava no carro.

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Lessa mora no mesmo condomínio onde o presidente Jair Bolsonaro tem uma casa, na Barra da Tijuca, no Rio. Nas redes sociais, Queiroz é simpatizante do presidente Bolsonaro. Ele curte as páginas oficiais do PSL Carioca, de Flavio Bolsonaro e de Eduardo Bolsonaro.

Marielle Franco
A vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes foram mortos no dia 14 de março de 2018 no centro do Rio Foto: Mário Vasconcellos / CMRJ

A prisão é resultado de uma operação conjunta do Ministério Público, por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), e da Polícia Civil do Rio de Janeiro.

Além dos mandados de prisão, a Operação Lume cumpre mandados de busca e apreensão em endereços dos dois acusados para apreender documentos, celulares, computadores, armas, munições e outros objetos.

Após a prisão dos suspeitos, parlamentares do PSOL e a viúva de Marielle pediram que as investigações continuem para descobrir o mandante do crime.

A viúva da vereadora Marielle Franco, a ativista Monica Benício, disse que “espera não ter que aguardar mais um ano para saber quem foi o mandante do crime“. Ela falou que as prisões dos dois policiais nesta terça-feira, 12, acusados de serem os executores do crime, são “um passo importante na investigação, uma etapa fundamental”.

Mônica Benício, viúva de Marielle Franco na ONU, em Genebra, na Suíça
‘As autoridades brasileiras estarão com as mãos sujas de sangue até que respondam quem matou e quem mandou matar minha companheira Marielle Franco’, disse a viúva Mônica Benício em Genebra Foto: Pablo Nunes

O vereador Tarcísio Motta (PSOL), colega de bancada de Marielle Franco, disse que as prisões realizadas na manhã desta terça são um passo importante na resolução do crime, mas que ainda falta esclarecer quem foi o mandante.

“Me parece óbvio que um crime dessa envergadura não foi cometido por razões pessoais desses PMs”, afirmou o vereador. “É fundamental chegarmos aos mandantes desse crime político.”

Operação Lume

Segundo o Ministério Público, as prisões ocorreram por volta das 4h durante a Operação Lume, realizada na residência dos suspeitos. Os dois foram denunciados depois de análises de diversas provas. Lessa teria sido o autor dos disparos de arma de fogo e Elcio, o condutor do veículo Cobalt utilizado na execução. O MP informou que o crime foi planejado de forma meticulosa durante os três meses que antecederam os assassinatos.

Na denúncia apresentada à Justiça, o Gaeco/MPRJ também pediu a suspensão da remuneração e do porte de arma de fogo de Lessa, a indenização por danos morais aos parentes das vítimas e a fixação de pensão em favor do filho menor de Anderson até completar 24 anos de idade.

Segundo o MP, o nome da operação é uma referência a uma praça no centro do Rio, conhecida como Buraco do Lume, onde Marielle desenvolvia um projeto chamado Lume Feminista. No local, ela também costumava se reunir com outros defensores dos direitos humanos e integrantes do seu partido, o PSOL.

“Além de significar qualquer tipo de luz ou claridade, a palavra lume compõe a expressão ‘trazer a lume’, que significa trazer ao conhecimento público, vir à luz”, informa o comunicado do MP. “É inconteste que Marielle Francisco da Silva foi sumariamente executada em razão da atuação política na defesa das causas que defendia”, diz a denúncia, acrescentando que a ação foi um golpe ao Estado Democrático de Direito.

Alerj homenageou PM

O policial militar reformado já foi homenageado na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Ele recebeu uma moção de congratulações, aplausos e de louvor em 1998 “pela maneira como vem pautando sua vida profissional como policial-militar do 9º BPM”.

“Sem nenhum constrangimento posso afirmar que o referido militar é digno desta homenagem por honrar, permanentemente, com suas posturas, atitudes e desempenho profissional, a sua condição humana e de militar discreto mas eficaz. Constituindo-se, deste modo, em brilhante exemplo àqueles com quem convive e com àqueles que passam a conhecê-lo”, justificou à época.

O autor da homenagem foi o deputado estadual Pedro Fernandes, que já morreu. Ele era avô do atual secretário de educação do governador Wilson Witzel (PSC), Pedro Fernandes Neto, ex-deputado estadual.

Em outubro do ano passado, pouco antes das eleições, Witzel participou de um evento em Petrópolis, na região serrana, em que os então candidatos do PSL a deputado federal Daniel Silveira e a deputado estadual Rodrigo Amorim (ambos eleitos) destruíram uma placa de rua feita em homenagem à vereadora assassinada.

A vereadora Marielle Franco (PSOL) teria sido morta porque milicianos acreditaram que ela podia atrapalhar os negócios ligados à grilagem de terras na zona oeste do Rio.

O crime estava sendo planejado desde 2017, muito antes de o governo federal decidir decretar a intervenção federal no Rio. As revelações foram feitas pelo general Richard Nunes, secretário da Segurança Pública do Rio.

Telão circula pelo Rio perguntando:
Marielle Franco foi executada a tiros na noite de 14 de março, junto com seu motorista Anderson Gomes, quando saía de um debate Foto: Silvia Izquierdo/AP

Em janeiro deste ano, a Polícia Civil e o Ministério Público do Rio prenderam cinco supostos integrantes de uma milícia que atua em Rio das Pedras, comunidade pobre da Barra da Tijuca. Um dos detidos era acusado de integrar o Escritório do Crime, organização criminosa suspeita dos assassinatos da vereadora e do motorista.

Quem era Marielle Franco

Negra, nascida e criada na favela da Maré, Marielle lutava pelos direitos de negros, mulheres e da comunidade LGBT e era crítica da recente Intervenção Militar ordenada pelo presidente Michel Temer.

Marielle nasceu em 1979 no Complexo da Maré, na zona norte do Rio. Formou-se em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio) e fez mestrado em Administração Pública pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Na dissertação para obter o título de mestre, pesquisou as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).

Papa recebe mãe de Marielle Franco
Marinette Silva ainda entregou ao papa uma camiseta com imagens da filha Foto: Arquivo Pessoal/ Marinette Silva

Segundo seu site pessoal, iniciou a militância em direitos humanos após ingressar em um pré-vestibular comunitário e perder uma amiga vítima de bala perdida em um tiroteio entre policiais e traficantes na Maré.

Foi eleita vereadora do Rio pelo PSOL com 46,5 mil votos – a 5ª maior votação. Estreante na Câmara, participava de comissão criada no início do mês para acompanhar a intervenção federal no Rio.

Apoiava projetos para punir o assédio em espaços públicos, em defesa de casas de parto e do aborto legal. Nas redes sociais, se posicionava contra o racismo e a violência policial. Em sua última publicação, divulgou vídeo do encontro de mulheres negras na Lapa, na região central, pouco antes de ser morta. No sábado, protestou contra ação policial no Acari, na zona norte.

Por Afrobrasileiros

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