Por que demoramos 50 anos para ter uma âncora negra no Jornal Nacional?

Temos que valorizar a conquista de Maju Coutinho, mas também refletir sobre o racismo estrutural e a falta de oportunidade para pessoas negras.

Por Ana Carolina Pinheiro | Ccapricho.abril.com.br

Se prepare pra ver preto sem matar e sem roubar no seu jornal“. Esse é um trecho da música O Céu é o Limite, dos rappers Mano Brown, Emicida, Djonga, Rincon Sapiência, Rael e BK, lançada em outubro do ano passado, antes de Maju Coutinho ser anunciada como a primeira apresentadora negra doa ocupar a bancada do Jornal Nacional, da Rede Globo. Mesmo assim, a frase consegue traduzir perfeitamente o que nós, negros, estamos sentindo com essa conquista.

SAIBA MAIS.:  Sesc Copacabana recebe a primeira Cia de dança negra contemporânea do Brasil

Confesso que, para mim, mulher negra e jornalista, a novidade tem um gostinho especial. Quando decidi cursar jornalismo, ainda na infância, sempre tive Glória Maria, Maria Júlia Coutinho, Zileide Silva, Joyce Ribeiro, Heraldo Pereira, entre outros profissionais negros, como inspiração. Com a Maju, o reconhecimento foi ainda mais forte, já que comecei a me interessar por telejornais na época em que ela apresentava o Jornal da Cultura.

Alguns anos depois, a jornalista foi contratada pela Rede Globo para atuar como repórter e, posteriormente, passou a apresentar a previsão do tempo, inclusive foi a primeira e única profissional negra da emissora a ocupar o cargo. Nessa época, eu acabava de entrar na faculdade de Jornalismo, na mesma instituição que a Maju estudou, e me perguntava diariamente: “como ela se sentia nesse espaço tão branco e elitista? Será que tinha algum professor negro na sua época?“. Bom, nunca tive respostas para essas perguntas, mas nossas histórias eram tão parecidas que já considerava Maju como uma amiga – só esqueceram de contar para ela… (risos)

Deixe uma resposta