Quilombo amplia e diversifica projetos comunitários em Porto Alegre

Jornal do Comercio

Associação Ponto de Cultura Quilombo do Sopapo, onde acontece a reunião de líderes comunitários da região

FOTOS MARCELO G. RIBEIRO/JC Pedro Carrizo O Ponto de Cultura Quilombo do Sopapo, que, há 10 anos, atua unindo arte e juventude na Zona Sul de Porto Alegre, abre-se para novas oportunidades com a conquista de sua autonomia jurídica. Foi uma luta e tanto conseguir o CNPJ e o status de associação que o espaço carrega desde o ano passado. Mas, com isso, surgem também novas responsabilidades.

A partir da conquista, o Quilombo tornou-se parte ativa da rede nacional de Pontos de Cultura, prevista na Política Nacional de Cultura Viva, o que engrandece ainda mais a sua atuação. “Tornar-se associação é uma questão estratégica para pensar na sustentabilidade do espaço, como captação de editais públicos. Além de começarmos a manter uma relação formal com entidades públicas e privadas do setor”, explica Leandro Anton, coordenador e educador do Quilombo do Sopapo.

A partir da formalidade, a associação pode acessar recursos como o Fórum do Orçamento Participativo e o Conselho de Assistência Social. Atualmente, cerca de 100 jovens frequentam mensalmente as oficinas e os serviços do local. Localizado no bairro Cristal, em frente à praça José Alexandre Záchia, a Associação Ponto de Cultura Quilombo do Sopapo é um centro comunitário de inclusão social por meio de atividades culturais e de acesso a políticas públicas.

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As oficinas de produção musical – entre elas, a com o tambor africano Sopapo, símbolo de resistência que dá nome ao projeto -, além de outras expressões percussivas, foram o mote para a fundação do Ponto de Cultura. Porém, não parou por aí. O Quilombo também dispõe de computadores com internet para acesso gratuito da comunidade; oferece oficinas de bonecos, capoeira e fotografia; promove as feiras semanais de artesanato, que acontecem na praça em frente ao Quilombo, com artesãs e artesãos locais, além de diversos outros projetos de empoderamento da comunidade.

Um deles, iniciado no ano passado e com segunda edição prevista para 2019, é o cursinho popular Carolina de Jesus para estudantes que vão fazer Enem e demais vestibulares. Dos cinco alunos que cursaram no último ano, três passaram na Ufrgs. Agora, com a reforma de outra sala do Sopapo, espera-se ampliar a turma para 40 estudantes da comunidade e arredores. Outro é o projeto de fotografia para apenados da Fundação de Atendimento Sócio-Educativo (Fase), encabeçado por Anton, e que irá se tornar livro em breve.

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“Produzir algo como um livro ou uma exposição tende a ser muito significativo na vida desses jovens. Ainda mais porque é sobre uma realidade que só tornou deles”, explica o educador. As fotos que irão compor o ensaio são de uma das unidades socioeducativas que já foi fechada na Capital. “Isso é lidar com sua própria história. O que está nas paredes daquela unidade desabitada é de um tempo.

A experiência que eles vivem hoje é a conexão com esse tempo passado. Assim, podem refletir de forma crítica sobre as mudanças das políticas públicas”, acrescenta Anton. Dessas tantas iniciativas que vingaram da Associação Ponto de Cultura Quilombo do Sopapo, nasceu o espírito comunitário que hoje pulsa nos irmãos Cristiano e Cristina Rosa. Os dois acessaram o projeto em 2006, ainda crianças, e, atualmente, participam do projeto em postos importante. O mais novo, Cristiano, é assistente nas oficinas de fotografia com os apenados da Fase.

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“Eu praticamente nasci aqui, então quero ajudar no que puder, mesmo entendendo o básico da câmera”, diz o irmão caçula, confessando que seu sonho é fazer robótica. Já Cristina traz a política na fala e nas experiência de vida. A irmã mais velha conheceu o Sopapo quando entrou em um curso de audiovisual, promovido pelo Coletivo Catarse, que aconteceu na sede do Quilombo. De lá pra cá, ela escreveu seu primeiro roteiro, que foi premiado com uma viagem nos estúdios Futura e Projac, no Rio de Janeiro.

Também foi uma das autoras do livro Imagens faladas, promovido pelo Ponto de Cultura, além de participar de outras iniciativas audiovisuais. “No Sopapo, eu consegui entender o conceito de trabalho. Na periferia tem muito mais trabalhador braçal do que intelectual. Essa é uma realidade periférica já imposta. Mas, a partir do momento que eu quebro isso, surgem várias reflexões do que é a periferia e do que é ser periférica”, pensa Cristina. – Jornal do Comércio

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