Quilombolas comemoram aprovação no curso de Medicina

ornada dupla, preconceito e condição humilde não foram empecilhos para que os jovens Evandro e Fagner desistissem de seu sonho

Por Jornalceleiro.com.br

Evandro e Fagner

A emoção e a alegria eram evidentes nos jovens Evandro, de 22, e Fagner de Sousa, de 20, irmãos pertencentes a comunidade Quilombola Invernada dos Negros. Filhos de pai operário e mãe analfabeta, os irmãos não permitiram que as dificuldades os impedissem de alcançar a primeira etapa de seus sonhos: Passar em medicina! Um passo dado para que alcancem o maior dos sonhos: ser médico. A caminhada foi longa e cansativa, principalmente porque os dois viviam a dicotomia entre estudar e trabalhar, tarefas que deixavam os dois rapazes com pouco tempo para dormir e se divertir. Mas, eles são enfáticos em afirmar que toda esforço valeu a pena, pois, assim como a jornada era dupla, a comemoração também. “Para nós é uma emoção sem tamanho porque viemos de uma família humilde, isso é algo histórico para nós que somos de origem afrodescendente e sofremos muita discriminação”. “É muita felicidade, choramos muito. Ainda não acredito”, afirmaram os irmãos.

Mais que irmãos, Evandro e Fagner eram amigos e apoiadores um do outro, trabalhando e estudando juntos. Pegavam serviço as 5h da manhã e saiam as 17h, Evandro voltava para casa para cumprir com seus afazeres e Fagner dava aulas a noite. Quando chegava se juntava ao irmão e entravam a madrugada estudando, dormindo poucas horas, pois logo em seguido tinham que ir ao trabalho. Além das dificuldades envolvendo a falta de tempo e recursos, os irmãos ainda precisaram enfrentar os comentários negativos de pessoas que desacreditavam seus sonhos. “Ouvimos muitos comentários negativos. ‘Vocês não vão conseguir, é um curso muito difícil, é curso para ricos’. Mas tivemos foco e acreditamos na gente, porque assim como outros tem capacidade nós também temos, qualquer pessoa tem”, relatou Fagner

Apesar de todas as dificuldades, os jovens enfrentaram com sucesso as barreiras por alimentar suas principais motivações. Os pais deles foram grandes motivadores dos sonhos, mas o amor e a preocupação com a comunidade quilombola foi fundamental e que os movia a nunca desistir de lutar. “Quando eu estava desanimado e cansado eu pensava nas pessoas que sofrem e lembrava que aquelas pessoas precisam de mim e por isso eu não desisti. Queremos terminar nosso curso não pensando apenas no dinheiro, mas trabalhar pelo amor ao próximo”, lembra Evandro. Assim como ele, Fagner comenta seu desejo de ajudar a comunidade, pois diz que a mesma não recebe um olhar mais atento do poder público. “Nosso intuito é buscar uma melhora de saúde para trazer para nosso povo que estão esquecidos, e sofrem e sofreram muito preconceito e discriminação. Nossa comunidade está esquecida, desde 1886 não tem um posto de saúde” lamentou, afirmando que ambos desde pequenos alimentam o sonho de se formar em medicina para que pudessem cumprir um papel social dentro de sua comunidade.

Toda a alegria e comemoração são sentidos por pessoas que sabem, por experiência, que só é possível conquistar os sonhos com lutas diárias. E além de poder ajudar as famílias quilombolas no futuro, por meio do trabalho prestado como médicos, eles também querem ajudar os mais jovens pelo exemplo de perseverança e esforço na busca pela melhora de vida. “Por mais que sejamos pobres, se temos um sonho e acreditamos nele temos que lutar, não devemos nos auto discriminar porque causa de classe ou por raça”, concluiu Evandro. “Nós somos os únicos que podemos impedir nossos próprios sonhos, se houver o esforço qualquer pessoa pode chegar onde quer, não importa de onde a pessoa venha”, ressaltou Fagner.

*Reportagem publicada no jornal “O Celeiro”, Edição 1566 de 21 de Fevereiro de 2019.

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