Racismo religioso tem origem na escravidão

A trajetória de perseguição a religiões de matriz africana se confunde com os mecanismos de escravidão no Brasil e suas raízes posteriores. Essa e outras conclusões foram apontadas pela graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Bárbara Cristina Pereira numa das pesquisas vencedoras do Prêmio Fapema Sérgio Ferretti 2018.

Com o título ‘Religiões de Matriz Africana e as Relações Étnico-Raciais: um estudo sobre o racismo religioso e suas manifestações na Região Metropolitana de São Luís’, o trabalho ganhou o primeiro lugar da premiação na categoria Jovem Cientista – Ciências Humanas e Sociais.

“Por meio de uma perspectiva sócio-histórica, o que se percebe é que a trajetória de combate e perseguição a essas religiões se confunde com os mecanismos de escravidão no Brasil e suas raízes posteriores”, afirma a pesquisadora.

Racismo

Fruto do trabalho de conclusão de curso da graduada, o objetivo da pesquisa foi analisar a intolerância religiosa praticada contra religiões de matriz africana e sua relação com o racismo.

Com base em dados do Ministério dos Direitos Humanos, que apontaram crescimento no número de denúncias de intolerância religiosa entre os anos de 2011 e 2017, a pesquisadora reuniu informações também junto a adeptos das religiões que figuram entre os maiores alvos desse tipo de discriminação.

“Entrevistamos oito integrantes de religiões de matriz africana daqui de São Luís, dois da umbanda, cinco do tambor de mina e um do candomblé. Além disso, utilizamos dados do Ministério dos Direitos Humanos entre 2011 e 2017, que apontam o aumento no número de denúncias de intolerância”, conta a pesquisadora.

“Em todos os anos que analisamos, essas religiões sempre apareciam em primeiro lugar no número de denúncias. O perfil das vítimas, em 2017, também apontou que a maioria era negra, enquanto o perfil dos suspeitos era branco”, completa.

A pesquisadora defende que o trabalho pode dar visibilidade a uma questão importante para o Maranhão, cuja população é 80% negra.

“A pesquisa se torna relevante quando nós pensamos que quase 80% da população do estado do Maranhão é negra e que investigar, pesquisar e dar voz às suas diversas particularidades – nesse caso no âmbito religioso, mas também cultural e social – é muito importante”, diz.

O trabalho foi orientado pelo Mestre em Educação pela UFMA e professor na Licenciatura Interdisciplinar em Estudos Africanos e Afro-Brasileiros, Rosenverck Estrela Santos.

“Ficou evidente, portanto, analisando o processo de formação social do país, que esse racismo religioso observado na atualidade tem relação estreita com a origem e a organização dessas religiões, mais do que qualquer outra coisa”, acrescenta Bárbara.

Prêmio Fapema

O homenageado nesta edição do Prêmio Fapema, Sergio Ferretti, também teve as religiões e os cultos afro-brasileiros como um dos objetos dos estudos desenvolvido ao longo da vida, com os quais se tornou referência no assunto e em cultura popular.

Além de Bárbara Cristina Pereira, outros 51 trabalhos foram premiados. O valor total distribuído entre os pesquisadores foi de R$ 278 mil. Promovido pela Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema), a premiação é apenas uma das ações de incentivo à pesquisa no estado.

“O pesquisador premiado ou a pesquisadora premiada ficam felizes individualmente, mas acho que o principal mesmo é ver a pesquisa reconhecida, é poder divulgar e difundir o seu objeto de estudo, reconhecer o processo coletivo que é fazer pesquisa, que nem sempre é fácil”, diz Bárbara.

“O prêmio Fapema é muito importante nesse sentido para o nosso estado e vem cumprindo com esse papel de valorizar a pesquisa em todos os seus níveis”, afirma a pesquisadora.

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