Sobre cães, cavalos e tanques

Na Cult  | Por Patrick Mariano

Dias antes da posse do novo presidente, milhares de números de celular de DDD 61  receberam mensagens de serviço SMS em que se alertava quanto aos itens que não poderiam ser levados para a esplanada dos ministérios no evento do dia 1. Depois se soube que essa intervenção no telefone particular desses usuários foi realizada pelo Comando de Operações Especiais do Exército.

A iniciativa, sabe-se lá a que custo financeiro aos cofres públicos, tinha um objetivo declarado, que seria o de conferir segurança e organização à posse, e outro camuflado e menos evidente, que é o de divulgar o próprio evento para garantir a presença de público. Bastaria, por óbvio, que o site do Exército listasse que objetos não deveriam ser levados à posse e pronto.

Na Câmara dos Deputados, gabinetes de oito parlamentares da oposição foram invadidos, sem qualquer comunicação prévia e afixados parafusos em suas janelas. Ao ser questionado, sequer o presidente da casa havia sido informado. A justificativa foi a de segurança contra atiradores.

Jornalistas que cobririam o evento foram humilhados com restrições absurdas de alimentos e líquidos, submetidos a tempo longo de espera com único objetivo de passar um recado de poder e força. A posse foi um grande espetáculo de helicópteros, cavalos, tanques, armas, restrições, exibição desnecessária de força e carros. Teve de tudo, menos gente. Não foi uma festa cívica como nas posses anteriores, com massiva presença de público, mas uma festa pretoriana, quase um 7 de setembro.

O fausto militar da posse tentou conferir importância histórica ao personagem e, ao mesmo tempo, difundir medo. A difusão do medo serve para suprir erros na condução do governo, notícias negativas como corrupção entre os seus e anestesiar ações de contestação. Tudo isso não é novidade na política. Foi a difusão do medo do terrorismo que recuperou a popularidade de Bush Jr., justificou guerras por interesses econômicos, criou campos de concentração e alterou legislações de países. Basta recordar que nem mesmo Dilma ficou imune à aceitação (com impressionante delay) dessa ideologia ao propor e sancionar a Lei do Terrorismo, mesmo diante da evidência da sua inexistência.

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Os ritos e exibição do poder podem conferir por um momento respeito e medo, mas utilizados de forma exagerada redundam em ridículo e desconstrução. A cena de um dos filhos, apelidados pelo próprio pai com o nome da raça de cachorro pitbull, sentando na traseira do carro que conduzia o presidente entra, sem dúvida, para o acervo dos momentos mais constrangedores da história do país.

O discurso do presidente, diante do vazio manifesto das ideias, centrou fogo no combate ao “socialismo” e no fato de que um dos grandes problemas do país seria a ideologia. Nada de geopolítica, papel do Brasil no mundo, na América Latina e nenhuma vez a palavra desigualdade veio à tona. Não há, por óbvio, resposta para o problema da desigualdade, ao contrário a intenção é o seu aprofundamento ao ponto de rebaixar, ainda mais, o salário-mínimo logo de saída.

Com relação a ideologia a questão é acabar com ela, colocando uma outra no lugar. Na geopolítica a obsessão é ser subserviente aos EUA e Israel, pouco importa os valores das importações e exportações com os demais países. Pouco importa se Trump está cada vez mais abandonado por seu próprio partido e o líder político de Israel envolto em denúncias de corrupção. Não há política internacional, existindo apenas visões tresloucadas sobre o mundo a ponto de Bolsonaro ter oferecido território nacional para instalação de uma base militar americana sem dizer a razão para tanto.

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Talvez sua maior frustração na posse foi não ter a presença de Trump. Ainda no campo das relações de comércio exterior, pouco importa os valores das transações comerciais com o mundo árabe e as negociações históricas sobre o conflito entre Israel e Palestina. O que importa é a obsessão de retirar a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém e se juntar a dois únicos países no mundo que fizeram isso: Guatemala e EUA.

Enquanto tudo isso acontece, um funcionário da família Bolsonaro se nega a dar explicações sobre uma considerável e incompatível entrada de recursos em sua conta e recebe a complacência do Ministério Público do Rio de Janeiro e do próprio ministro da Justiça.

No centro do debate, a reforma da previdência. Justiça seja feita, Bolsonaro percebeu e recebeu a ira do mercado e dos seus aparelhos ideológicos quando externou sua visão sobre ela no sentido de não optar pela versão mais drástica e sanguinária, como querem Paulo Guedes e seus asseclas. Como resposta, Bolsonaro ganhou um Jornal Nacional quase inteiro expondo o presidente ao ridículo, desautorizando-o com falas de um mísero Secretário e utilizando o inexpressivo Ônix para explicar o que o presidente “quis dizer”.

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Além do Jornal Nacional, o grupo Globo utilizou seu jornal impresso para mandar um recado direito e objetivo: “É equivocado fazer concessões antes da própria reforma”. Diz o Jornal:

“Bolsonaro se diz preocupado com o fato de, ‘no Piauí’, a expectativa de vida ser de ‘69 anos’. Além de desinformação, mostrou ter sido vítima da campanha marota das corporações de privilegiados que combatem os limites de idade em nome ‘do povo’”.

Ao final, o Jornal arremata:

“Bolsonaro também não pode baixar a guarda e admitir, como fez, que a complementação da sua reforma ficará para o sucessor. Significa dizer que não conseguirá o melhor possível. Declara-se derrotado previamente”.

Ou seja, o capital e seus aparelhos ideológicos somente aturarão as bizarrices da família Bolsonaro, dos seus ministros e o próprio presidente se ele cumprir com a tarefa de implementar todos os itens da cartilha ultraliberal. Não há espaço para tolerância com eventuais sensibilidades tardias do presidente para com o seu povo.

Como um Severino Cavalcanti, Bolsonaro só será útil enquanto seguir item por item da cartilha. Se ousar pisar fora dela, será descartado. Um Michel, um Doria e um outro Jair por aí é o que não falta em meio à sandice que se tornou esse país.

PATRICK MARIANO é advogado criminalista, mestre em direito pela UnB e integrante da Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares – RENAP

O fausto militar da posse tentou conferir importância histórica ao personagem e, ao mesmo tempo, difundir medo .Arte: Revista CULT / Foto: Rodrigues Pozzebom, /Agência Brasil

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