Um olhar sobre o sujeito e o Estado

CRÍTICA TEATRAL:
ESPETÁCULO: “RICARDO III OU CENAS DA VIDA DE MEIERHOLD”
O primeiro detalhe a se notar é que o tipo de crítica inclusa nos textos de Visniec e a qual é explorada nesse espetáculo cabe perfeitamente a atual realidade brasileira.
O olhar da plateia através da mente de Meierhold (no caso o personagem principal do texto e montagem) funciona como um bisbilhotar da nossa existência nacional (sobre o sujeito e o Estado) por uma lente de aumento.
Mesmo antes do início do espetáculo, ao sentarmos na plateia e notarmos a silhueta da cenografia, recortada ainda na penumbra, e ao escutar os toques impressos pelo sonoplastia, já somos transportados para uma atmosfera de análise de um conselho, onde aparentemente há uma espera do julgamento da plateia sobre os questionamentos discorridos em cena.
É indiscutível a relevância do texto e da montagem muito bem orquestrada pela direção de Clara Carvalho, que delimita precisamente o desenho de cada personagem dentro do universo interno de Meierhold, construindo cenicamente um paralelo mais do que real à uma sociedade abafada por instituições, órgãos ou atitudes pessoais autoritaristas. As marcações cênicas são limpas, exatas, o que não é nada fácil quando se desenha um espetáculo composto por muitos personagens e distintas cenas.
A ironia é o tom principal da montagem, assertivamente, o melhor instrumento para divertir o público enquanto este, ao mesmo tempo analisa criticamente os fatos.
O elenco é um deleite a parte. A união entre a alta qualidade das atuações à direção e ao texto compõem ingredientes de uma receita deliciosa de um cardápio amargo.
O cenário e figurino de Chris Aizner (com participação de bonecos da Cia Pia Fraus) são um personagem a mais na obra, auxiliando “invisivelmente”(entenda-se como na medida certa) o contar da história. Um sinal disso é o olhar do telão central que observa e julga como uma tradução da nossa necessidade de alerta constante à realidade.
A montagem é a prova de que o público pode sim absorver obras complexas, críticas de forma divertida e prazerosa. Somos todos na plateia levados pelo andamento da história através uma ilusão teatral construída de forma certeira por todos os envolvidos na arquitetura cênica.
Os atores demonstram sintonia e harmonia com atuações na medida exata, sem exceções, desde o já tão conhecido talento e técnica de Rubens Caribé até o humor delicioso de Rogério Brito que arranca gargalhadas da plateia.
Um espetáculo imperdível para enxergar e analisar com clareza nossos atuais percalços.
Avaliação: 🌟🌟🌟🌟 ótimo

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FICHA TÉCNICA

Texto: Matéi Visniec

Direção: Clara Carvalho

Elenco: Rubens Caribé, Duda Mamberti, Fernanda Gonçalves, Junior Cabral,       Lívia Prestes, Mara Faustino, Rogério Brito e Rogério Pércore

Assistente de Direção: Mariana Muniz

Cenografia e Figurino: Cris Aizner

Iluminação: Wagner Pinto

Boneco: Beto Andreta – Cia Pia Fraus

Música Original: Ricardo Severo

Assessoria de imprensa: Pombo Correio

Direção de Produção: Daniel Palmeira

Produção/Idealização: Lívia Prestes


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